quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O resultado de Manoel de Barros

De tão evasivo que sou
Tento fugir até do tempo.
Tempo que passa,
Mas não passa a dor.
Tempo que mexe com o amor,
Mas que arrasta à existência

Fato é que todo dia é dia de feira.
Entretanto, a vida é feita de re(encontros).
Máximo respeito aos esbarrões da madrugada;
Da primitiva necessidade por fogo
Surgem as chamas da imunização racional.
Gozos, rostos e fumaças
Locupletam a sede por cultura de qualquer peregrino subversivo.
Pensar numa noite sem novas vozes ao ouvido
É perceber traços de descompasso ao tom do samba.

Os versos são soltos, sim!,
Mas porque a paixão é tão ardente, latente e desgastante.
A linearidade é apenas um detalhe.

Tendo em vista a produção artística
Sei que meus desabafos sufocados
Um dia irão me ajudar a cumprir tal tarefa.
Meu mundo de roubos e fugas
Faz-me questionar-me à que margens está minha sanidade.
Não é culpa do leitor,
Apenas de minha irresponsabilidade

Com tantas companhias agradáveis que poderia ter,
          escolhi a da caneta e do papel;
De tantos gostos a experimentar,
          preferi o do bom e velho câncer;
Mesmo com tantas imoralidades a escutar,
          não decifro nem mesmo as minhas.

Quando percebi que personagens de minhas linhas
          se tornavam meus melhores amigos
Vi que algo estava errado.
Não espero uma realidade coberta inteiramente de flores,
Mas minhas angústias estavam exageradas
E não tinham mais pra onde fugir.

Agora, no final do poema,
Meus medos são outros.
Mas por minha mente sempre rondará o espectro da
          solidão.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O que me espera?!!

Neste sol escaldante,
Neste vento uivante
O que me espera?
Naquele lago distante,
Naquela miragem horripilante
O que me espera?
Num passado constante,
Num futuro importante
O que me espera?
Sem amores famintos,
Sem ódios extintos
O que me espera?
Da galinha sem seus pintos,
Do silêncio nos recintos
O que me espera?

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Água aguada

Que é a água?
Líquida e incolor,
Mata minha sede em dias de sol;
Mata minha sede em dias de câncer;
Mata minha sede em dias de coma.

Onde está a água?
Ora bolas,
Dependendo de onde estás,
Olhes ao lado e veja:
Ela está em todo o lugar.
Nas casas, nas praias, nas chuvas
Mas e quem não tem casa?
E quem não tem praia?
E quem não tem chuva?
Como ficam?

De quem é a água?
Clamo para que seja nossa,
Extraída do povo para o povo
Que o povo possa matar sua sede:
Não só de água,
Mas também de casas, praias e chuvas
Que chutemos então
Os lordes da disparidade,
Os muros da desigualdade!

Reflitamos então:
Para quem vai a água?
Saneamento básico e água potável,
Todos nós temos?
Água barrenta e chuva ácida,
Quantos as tem?

Quanto vale a água?
Por vezes pouco,
Por vezes muito.
Este não é o problema,
E sim haver um preço pela água!
Água, água!
Água de beber!
Água de viver!
Água de pensar!
Água de sobreviver!

terça-feira, 16 de julho de 2013

Viva a poesia Pau-Brasil

Ô menina,
Olha só daonde você veio,
Olha só o jeito que chegou chegando,
Chegou chegando no que interessa
Dizendo trazer a poesia para os poetas
Ô menina,
Não sei se agora me escuta,
Peço apenas que venha só
Que venha sem o linguagem antiquado
Que venha sem a forma ignóbil
Mas que venha com os navios para exportarmo-nos!

Nós que surgimos da brasa,
Devemos repudiar o naturalismo,
Devemos reivindicar uma beleza que não seja para poucos,
Devemos lutar pela liberdade,
Apreciar uma admiração
E abençoar a criatividade



quarta-feira, 10 de julho de 2013

O caso do mudo e surdo

Triste que estava,
De um colo necessitava.
Apenas repetia:
Corrente e maré não são o mesmo:
Um corre e sua no pátio,
Outro se esguia no câncer

Porém, há um caso diferente,
Do mesmo mundo,
Só que um pouco mais aguardente.
Este caso cantarola os mais belos cantos,
As mais belas rosas são suas
Os mais sutis dedos são seus
Os mais belos lábios (todos) são seus.

Por estranhar o colossal
Me fiz de mineiro.
Cheguei no fino,
Falei no pé do ouvido,
Pedi com carinho,
Segurei a diabetes.

Logo disse que urgia a minha libertação
Que queria seus prantos floridos
Que queria suas risadas quentes
Que queria sentir seus feromônios

O caso respondeu que não
Que não somos um do outro
Que para o desejo surtos não eram precisos.
Disse que sendo mudo e surdo,
Lia as linhas da minha loucura

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Tinta à óleo

Só de pensar em seus olhos
Começo a cair,
Me despedaçar por seus versos.
Falta o ar nos pulmões
Falta o grafite na ponta do lápis

Mesmo gago,
Começo a escrever por linhas tortas
Por aí vou sem rumo nem prumo
E fico a observar seus dedos sensíveis.
Os nervosos saem à tinta
Pintando aos grandes mestres
Compondo um infinito intragável

Suas ondas me fazem ter alucinações
Encontram um pequeno refúgio de liberdade.
Mas qual é este marolar?
Tangível e intangível,
Jamais confunda!
Sempre será nosso:
Somos todos uns dos outros,
Uma dádiva constante



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sonhos

Sonhos vulgares,
Ideais inatingíveis
Ideias transtornadas
Devaneio irreparável
Do que se faz o homem?
Se não for pra pensar,
Se não for pra imaginar,
Se não for pra se deliciar,
Se não for pra fugir,
Se não for evasivo,
Se não for sublime,
Do que se faz o homem?

Das chamas irreconhecíveis
Dos meandros indesejáveis
A bateria do ser
Move-se o homem pelo sonho
Querer o progresso
Dar perfeição ao futuro
Esperar pelo melhor
O passado não existe
O presente não importa
Do futuro que se espera

Um espetáculo sem fim,
As cortinas não se fecham
Fortalezas estão abaixo
Restrições onde?
Delicias pelo livre
O que quiser irá aparecer
Sem senhores, amos, pudores

A fumaça não se filtra
A água não se cerca
O uísque não acaba
Demônios apaixonantes que não são,
Escurecem suas raízes
Abandonam suas mães
E pedem licença para passar
Mesmo sem ter que pagar

Todos os fogos o fogo

Chama dos amores,
Faísca do câncer,
Brinde da fumaça
O fogo
Um mestre gasoso
Da química entre corpos
Do amanhecer das folhas
Ao repúdio ao parnasianismo
À idolatria pela autonomia

Fulguras, ó Brasil, florão da América
Pregas diálogo
Nem tudo que pode à bélica
Mediante gritos de socorro,
Fogo!, grita o comandante
Inspira o soldado
Espirra a pólvora aos lados
Jorra o sangue inimigo

Por muito tentei não acreditar
"Por nós este nos deu sangue"
Que diabos?
Qual é esta visão?
Morrer a que troco?
Coragem ou imbecilidade?
Dizem jamais abandonar o campo de batalha,
Sem saber o porquê de nada
De estar ali ou pra quê ou pra quem

Por estes,
Calafrios vazios me chegam
Justamente como agora:
Por vezes vejo as belas donzelas
Nem esforço
Elas vem até mim,
Ora elas lindas encantadoras,
Lágrimas duronas,
Olhares encabulados,
Receando respostas concretas

Que se movem as veias?
Sangue?
Oxigênio?
Amor?
Paixão?
Ousa-te,
Proclame um novo ardor
Diga que é o tesão
Um qualquer fogo motiva
Impulsos inebriantes,
Rebuliços incontroláveis,
Combustão involuntária

Por favor não me queima,
Por favor não se derrube,
Por favor fogo fogoso,
Por favor fique na tua,
Por favor fuja e rebole,
Por favor sambe o funk sem vergonha

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Liberto ou existo?

Colocar a ordem no lugar?
Qual é este?
Debaixo da mesa?
Pelo visto sim,
Onde se cata migalhas

Progresso para quem?
Não se extingue a palmatória
O caos das esquinas,
Problematizando as cores
Quem assim andar,
Nunca mais será visto!
Colocando sangue nos olhos aos palavrões
Quem assim falar,
Nunca mais será visto!
Perdendo a paciência com as roupas
Quem essas usar,
Nunca mais será visto!

Trabalhando com possibilidades
De luta ou apatia,
Do tangível ao infinito,
Qual a postura contra a burguesia?
Na penumbra da indecisão,
A fumaça toma conta
Não se descuidando pela hegemonia
Pois à porta bate a cirrose!

Que puta escravidão!
Não bastassem os trabalhos ímprobos,
A sifilítica consciência me corrói
Peço perdão e que me julgue com carinho,
Porém sempre hei de lhe indagar
Quem são essas pessoas?
Onde estou?
Que sociedade é esta?

domingo, 31 de março de 2013

Aos meus lados

Olhas pra cima
Azul, branco, preto e amarelo
Tudo bem, maravilha?
Já pensou no tapa?
Sim, o bloqueio!
Tapa-se a visão
Impossibilita-se o dislumbrar

Vejas as nuvens
Rumando a norte ou sul,
Vindo do leste ou oeste
Tanto faz
Imagines apenas um assopro,
Espalhar das moléculas
Uma pra cá
Outra pra lá

Fito a porta,
As chaves
E a fechadura
Me pergunto se quiçá
Quiçá vem café,
Um salgado,
Uísque aí, vai?

Aos meus lados
Brumas se aprontam
Bombas se desfazem,
Pula a água
Jogam os braços.
Fico assim sem nada,
Sem saber assim
Sem nada saber
Sem saber do resto
Sem o resto do fim
Sem as intrigas do fim
Sem o fim da noite

Pergunte ao patrão

O embaralhar das cartas
Os pormenores da noite
O entorpecer da cota imaginativa
Derramam fulgores debaixo de pés
Imundos, escuros
Números primos no universo N

Sem alardes,
Se purificam
A família de todo dia
Arroz, feijão e carne
Passa, lava e arruma
A família dos fins
Breja, erva, nova
Bebe, fuma, fode

Tudo vem
Tudo vai
Se estão prontos ou não
Estabelecem conexão profana
O pecado do lado do beato
Range os dentes
Unge as secas
Sacode o bolso
Incha o filho
Impede a passagem
Da vergonha preparada
Por um embarasso,
Simples ou complexo
Olho por olho
Dente por dente
(Pergunte ao patrão)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Do que sei?

Como qualquer jovem pretensioso, ouso e me julgo um poeta. Como um poeta, a minha vida vai à tinta. Como ela vai à tinta, me julgo um chato pela necessidade de reflexão. Como toda confusa confissão, julgo a urgência de um segundo ponto de vista. Como este poema precisa ser avaliado, julgo ser você talvez a pessoa mais indicada, por tantos beijos e minutos compartilhados em uma só noite.



Sei que a madrugada foi singular
Que bem se pareceu a outras de outros outonos
Que os beijos eram intermináveis
Que os semblantes eram indistinguíveis
Que o impulso não condizia com o ambiente
Que o etílico tava na barriga
Que o gasoso tava na mente
Que a culpa estava longe
Que tinha batom no dente
Que a música enervava os sentidos
Que as lembranças ficaram vívidas
Que as lágrimas inexistiam
Que a chama não podia se apagar
Que os sorrisos abundavam
Que o vício era pelo presente
Que o amanhã não seria possível
Que a divagação era inerente
Que ainda espero um dia ser alguém
Que tenha lapsos de consciência
Que possa transparecer a minha essência
Que disso talvez alguém saiba
Que modo melhor para poder me explicar

terça-feira, 19 de março de 2013

Terra das contradições

Terra de Deus
Terra de cegos
Terra de surdos
Terra dos latifúndios
Terra dos senhores
Terra dos escravos

Terra, terra, terra
Mercúrio, Vênus e Terra
Detonando em granada
Minha contagem se emperra

O alicerce de tudo é a terra,
A terra da terra é o pobre
Terra de miséria
Terra de favela
Terra dos negros
Terra das pulsões
Terra das crises
Terra da distância
Terra do desconhecer
Terra do medo
Terra do tiro
Terra da guerra
Terra da morte
 
Por pouco se muda o enredo
Sobrevivendo a terra se acolhe,
Procurando resquícios humanos
Na falta do acumulo material
Virando terra dos sonetos
Terra dos encantos
Terra do terreiro
Terra da vida
Terra do samba
Terra dos batuques
Terra das rimas
Terra dos amores
Terra dos olhares
Terra dos sorrisos
Terra das paixões
Terra das contradições

quinta-feira, 14 de março de 2013

Triste luta triste

Por lá perpassam proibidas toxinas
Extravasando o alívio
De um passado angustiado
E um futuro premeditado

Aos sete mares
De Heitor e Páris
As mais belas das mais belas ilhas
Desfilam sem pares
Pois todas estão destinadas ao mesmo
Mesmos odores
Mesmos pudores
Mesmas cores
Não vivendo grandes amores
Muito menos extremas dores

De fato cheiram das melhores flores
Mas seus pais, ora eles,
Investigam falsos horrores
Tais crimes dos infratores
Que penam por um lugar na terra dos senhores

Das leis do Darwinismo Social
Provém o imundo consumismo material
Travestindo os amigos de democracia
Pronunciam-se os grandes ditadores
Disseminando o valor do patriarcal
Assim lhes apresento os opressores
Sedentos por uma sociedade medieval

Porém reluto por um puto
Nas noites em claro tenho estudado
O que já dizia o velho crucificado
"Que vá de cada um,
De acordo com as suas habilidades
Para cada um,
De acordo com suas necessidades" (!)

Muito se passou
Nada se ouviu
Pouco adiantou
Pois encarregados ficaram
Os lordes da disparidade,
Os mestres da debilidade,
A cumprir tal bondade
Porém o tom era de vingança
E se passando por caridade
Aos pobres deram cintos de castidade
Sem dó nem piedade

Ó triste luta triste
De nós para nós
Ninguém nos assiste
Ó triste luta triste
É em voz, terra e pão
Que nossa luta consiste
Ó triste luta triste
Levanta-te
E vê se não desiste!

terça-feira, 12 de março de 2013

Jogo de xadrez

Como se das minorias a culpa fosse,
O verbo é esmagado
Arregaçado
Triturado
Rasgado
Misturado em extremas emoções

Canta-se o veneno
Da lata ou sem pata
Não importa quem se atrasa
É tudo questão de estratégia
Se ficar o bicho come,
Se correr o bicho pega,
O homem preso ao que é seu e nada mais
"Pelo progresso, marchemos!"
Mas do que adianta?
Do que adianta sentar e olhar,
Parar para ver o ego inflar

Não inibidas pelos álibis
Convicções ao vento se espalham,
Loucura, lavagem e tolice
Dificultam a difusão ideológica
O fundir dos povos
O unificar do trabalho
A profusão da liberdade
São desfeitas
Por vezes até destroçadas
Humilhadas
Sangradas
Por pequenos grandes canalhas,
Vítimas de suas próprias inseguranças

Criando suas próprias leis
Coroando seus próprios reis
Mestres apenas da altivez,
Os donos da mais bela vista
"Também podem vocês"
É o que dizem
Em vezes, um chega no topo do morro
Fazendo servir
A esperança como pão
E a raiva como terra

Se usar o aPito,
Famoso entre os cabeludos,
Vira alvo da demonização
Dos padres do culto aos frescos
Permeados pelo rigor, disciplina e resguarde
Unidos deram golpes
Já considerados revoluções
E ainda orquestram câmaras secretas,
Indiretas e indiscretas
Negociam o valor da cidadania
Se pondo a recolher altas taxas
No tangível,
No intangível
No imperceptível
Empreendendo uma nova Pasárgada
Não em prol do coletivo
Mas para um, dois ou três
Poderem se deliciar nas cristalinas águas
Com baixa fiscalização
E muita embriaguez

segunda-feira, 4 de março de 2013

O que sou?

Eu sou o baseado,
Os orgasmos,
As doses,
A água,
E o café também

Posso vir a ser o cabelo
A barba,
A voz,
O olhar,
Um rosto

Se não quiser ficar fora do compasso
Viro o samba,
Entretido por atabaques
Terreiros
E centros de umbanda

Caso decida entrar na escola,
Hei de vislumbrar
Me tornar literatura,
O marxismo,
A luta de classes,
E talvez um dia,
A revolução

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Por um nunca mais!

É o ciclo
Novamente estamos na merda
A ofensiva deles
Nos atinge
Como uma lança
Na caça
Um arame no gado
Retrato da queda de Leningrado

Hei de investir
Hei de me focar
Hei de criar
Hei de continuar
Hei de me declarar

O amor mais puro
Atinge as veias revolucionárias
A realização de um sonho
Se torna palpável cada vez mais

Estando na reconstrução,
A criação da organização
Se dá em pé de batalha
Urrando por mais ouvintes,
Menos cegos e mais adeptos

Miséria
Desemprego
Falta de paz
E desespero
Lutemos por um nunca mais!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

As inspirações

Penso,
Logo arrepio
Sinto o cantarolar
Festejar
Sorrir

O despertar de uma ideia
Uma ficção qualquer
Que percorre minha estrutura espiritual
Inventando até
Que possa surgir um romance
Devaneado em narrativas carnavalescas

O samba rola
O volume sobe
E a bebida desce

Saltitante e feliz pelas veias,
A fertilidade se instaura nos dedos.
O digitar do imaginar
Ofusca o clarão da racionalidade

De pensar que não me dá colher de chá
E insisto em seguir
Não realmente o que quero
Talvez nem o que devo
Mas sim o aroma do instinto

Com os olhos vendados
Me guio por rédeas
Tentando confiar
No gado que me conduz

Inerente à necessidade humana,
O desespero não se esquece de mim,
Me forçando a arquitetar
Todo um aparato por ela
E assim,
Tão solenemente,
Sigo um doloro processo

Memorizar para não esquecê-la
Correr para não perdê-la
Ignorar a fome para não deixar escapá-la

Não se negligencia tal chance,
A de registrar uma mensagem
Tão simples quanto um sorriso
E tão necessária quanto um beijo

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Loucura

Parecia inofensiva, mas me dominou, me fez de fantoche, aniquilou minha carcassa e pendurou-me pelo pé. Com o sangue fluindo rapidamente pelas veias neurais, minha cabeça estava a mil. Problemas ricocheteavam em meu intelecto, dentre eles o principal, ela. Ela e seu sorriso ambulante, triste, timído e sincero. Abusiva, atua como subversiva na locomotiva. Dói, sim, é triste, melancólico. As cores, turvas, revezam tons sinestésicos que intimidam qualquer poesia, por mais bruta que ela seja; com ou sem aliterações.

Foi nessa hora que Antônio freiou o carro violentamente, jogando todo o sangue que pulsava em minhas têmporas para o fundo do cérebro. E não foi só isso, meu corpo também foi arremessado pra frente, mas como me encontrava contorcido na cadeira, fiquei de cara pro chão no final da ação do motorista. De ratos, camundongos ou ratazanas, não importa, Antônio tinha uma nojenta criação e se esforçava para que ela crescesse. Tagarela, sempre encheu o meu saco. Ria muito, era boa gente, gente boa. Subi minha cabeça vagarosamente, cuidando pra não fazer meu crânio explodir, porém pronto pra revidar Antônio. Eu estava desvairado, meu pensamento em outra dimensão, chapado de haxixe e mescalina, puta combinação. Tudo tinha muitas cores, girava, vários odores, formas esquisitas. O medo foi o sentimento preponderante quando vi que Antônio não havia freiado o carro abruptamente sem motivos: havia uma blitz a uns 100 metros, já dava pra ver a luzinha piscando. Carregávamos muita droga, não éramos traficantes, apenas doidos. Era tudo muito desnecessário, irresponsável, mas ao mesmo tempo parecia-nos irrefutável e essencial tal situação. Um sentimento exasperado de fuga, uma busca aguda pela solidão, jamais proclamada por algum outro ser.

Não tínhamos o flagrante em mãos, tudo estava na mala, portanto nos importamos em parecer pessoas normais para passar na eventual averiguação do policial. Torçemos muito, sem sucesso: o porco fardado pediu para que encostássemos. Dei tapas na minha cara para acordar. Estranhei a fonia da voz do guarda. Truculento, alto e sério, falava fino. Quase ri, mas Antônio continuou concentrado, quase achei que meu amigo tinha tido um derrame. Foi requisitado a ele o documento do carro e sua habilitação. Sem dizer uma palavra, entregou ao policial. Tudo normal, porém, como de rotina, o policial transmitiu-nos que deveria investigar todo o carro. Saímos do carro e ele mal entrou quando viu marcas de sêmen por todo o canto. Ficou até como nojo de encostar em algo. Saiu do carro e direcionou-se ao porta malas. "Puta que pariu, ferrou", pensei, pois todo nosso "carregamento" estava lá. Entretanto, outra surpresa se manifestou: no vidro da parte de trás do carro encontrava-se os dizeres de "Recém-casados". Não sei bem o que passou na cabeça do policial, mas hesitou e voltou. Deve ter imaginado que éramos gays e que encontraria na mala vibradores, sei lá. E então desse sufoco nos livramos.

Nos limitamos a agradecer e desejar uma boa noite e logo entramos no carro. Não proferimos nenhuma palavra, nosso entreolhar bastou. Um sentimento único, de longevidade, se apoderou de minhas entranhas, algo verdadeiro. Era madrugada, não haviam postes de luz por perto, uma onda forte me empurrou e me fez deitar no banco. "Creio, imagino, formulo hipóteses, devaneio, penso demais". Era o sono, "pilhérias me deixem!", queria parar de raciocinar, nem que por um instante. Há dois dias ininterruptos estava à base de haxixe, mescalina, café e pão. Estava precisando dormir.

sábado, 19 de janeiro de 2013

À espera do oculista

Capítulo 1

É verdade, não faz muito tempo, mas tenho saudade de mim, quando com minha primeira namorada. Magra, loira, popular, sorriso artificial e beijo apressado. Raras sombras de tesão, inexistia a paixão. Pulsava apenas a necessidade e a comodidade de ter alguém ao lado só pra satisfazer um desejo inculcado por padrões. Muitos confetes, poucos enfeites. Uma realidade segura por um fiapo de cabelo. Não houveram mudanças no eixo terrestre, o tempo apenas passou. A informação disseminada chegou a mim de forma que a poucos atinge. O tempo ocioso passado em casa, sozinho, ouvindo música e vendo filmes, até mesmo cagando ou deitado, me fez refletir muito sobre a minha vida. Valores, em essencial, existencialistas tomavam conta de meu intelecto.

Confesso que pode ter sido importuno o fato, mas foi de alto valor para a continuidade de minha vida nos anos seguintes. Me definiu quem sou. Aprendi a observar as pessoas e diagnosticar as suas interações.

Não mais temo, receio, finjo, me inibo ou me intimido; as raízes da compreensão foram bem fincadas. Hoje se vê, pela cor do sangue, as marcas de Marx, Neruda, Luxemburgo, Marighella, Guevara, Cortázar, Assis, Buarque, dentre outros Cartolas e mais alguns bambas.


Tinha asco de cerveja, quando com 12 anos. Argh!, amargo! Risadas, copos de plástico e entornadas de vodka acabaram me levando a um coma alcoólico por conta disso. Era a empolgação, a verve do momento de poder voltar para casa de madrugada, pagando de bebum, sorrindo e ignorando o samba. O berço do samba não se fez das cinzas, como contribuir a ele pendurado por fios? Inocência tamanha que na semana seguinte já estava com um copo na mão. Os casos de família não serviam como referência, erroneamente. É tão bom cantarolar, vibrar, beber, fumar, curtir, beijar e ficar rouco de não conseguir parar de relaxar. Sim, a cada batida do pandeiro, a cada verso do canto, a cada passo do gingado da dança minha mente se solta, para de pensar - por dois, três ou quatro minutos ininterruptos - sobre a dura realidade e sua aparente intangibilidade coletivista.


Eu quero
Porém não posso
Não por incompetência
Rezo pelo fim da inadimplência

Uma barreira cósmica
Impede que pólos iguais se atraiam
O pretensioso prisioneiro
E a libertária impetuosa

Como se prima
Quem milita
Não delimita
O alcance
Que a espiga pode atingir

Àquelas obscuras profundezas
Muito terreno 
Já fora explorado
Dentre tratores e retro-escavadeiras,
Machados e enxadas 
Enrugaram o local

Mas óbvio,
Concordo
Todo o milho de João,
Marido de Maria
Não pode ter
Sua importância negligenciada

Feito com o decorrer de outonos
O azeite de dendê
Benfeitor do samba
Recorre à mãe-de-santo
Reclamando por sua fama
E importância histórica
Chega a noite
E bares e esquinas
Renascem do descanso
Pós-feijoada
Garfos e facas
Dão vez a copos e garrafas

O sol desce
A lua sobe
Os biquínis saem
Os vestidos entram
Busca-se a liberdade
Aguçada em sonhos

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


Ó humilde calor,
De tremenda umidade
Que me sufoca nesse quarto trancado
Por ele pego, leio, tento e deito
Quase desmaio

Momentos de veemente dor e aflição
Separam o imaginável do intangível
O real do perecível
E o amor do realizável

A brisa passa
Mas não transpassa
A realidade dos quadros da ilusão

As toalhas voam
As crianças correm
E eu silencio abraçado com a agonia