Meu humor se passa pela condição de meus sentidos. Minha capacidade de concentração se estabelece a partir do equilíbrio dos objetos e das pessoas ao meu redor, ou seja, sou um arrogante, teimoso e sensível pseudoescritor que apenas consegue sentar numa mesa e escrever quando há silêncio na casa. Como isso é um fato raro, deduz-se que minha obra se restringe aos períodos de inspiração em que todos, ou quase todos, estão fora de casa. Este é, sem dúvidas, o maior motivo para querer e gostar de ficar em casa sozinho. Ainda havendo tal possibilidade de autonomia para envergonhar as memórias de Dostoiévski e Kafka, não estou imune à interferência externa. A vizinha pode (re) começar a gritar com os cachorros, pode passar um caminhão ou uma moto barulhenta na rua de casa, o carteiro talvez bata na porta para uma entrega, o telefone pode tocar a qualquer hora, enfim, inúmeras situações que podem ocorrer sem minha permissão.
Enquanto tento amortecer a caneta na minha mão direita, tento buscar inspiração no café que está na caneca verde com a figura gravada do Che Guevara que comprei na Argentina. Um gole do quente e amargo me ajudam a despertar e desce garganta abaixo como um antídoto pela moleza que Mary me deu. Já que a citei, deixe-me apresentá-la. Mary é uma das mais selvagens putas que o mundo pode oferecer. Está sempre com calor e usa pouca roupa, em um estilo mais animalesco possível. Insisto que sussurre suas palavras no pé de meu ouvido enquanto estiver comigo, mas não me dá atenção. Parece que me transporto a outra realidade quanto comungo de sua presença: a dimensão dos surdos, o mais contraditório dos mundos que meu intelecto pode criar. Quando estou lá, meus olhos encolhem e minha visão fica embaçada, minha fome aumenta, uma certa pressão y passa a ser exercida em meus ouvidos e fico maciamente tonto. Por auto, é uma realidade muito ruim, defeituosa. Mas aí é que está o grande barato: Mary me oferece um tele-transporte psíquico, onde relaxo e meu poder de anular as variáveis externas se torna infinitamente maior. Puxa vida, quanta coisa dá pra ver, pensar, imaginar, divagar e refletir neste mundo dos surdos! Minha surdez me permite o impossível, mas Mary me amola demais. Por isso o café se faz tão necessário, aguça o sentido psicomotor, tirando-me da inércia e, então, me permitindo colocar no papel o que sinto.
Porém, nada é tão lindo, dócil e fácil demais, como diria vovó. Sou um mensageiro do meu intelecto e não de outros espíritos. Não fico em estado total de transe para conseguir escrever tão rápido, de forma que nem metade do que percorre minhas ruas neurais seja traduzido em tinta no papel. Com o tempo, vou melhorando minha velocidade de escrita, mas isso decorre ao mesmo passo que a agilidade de raciocínio e capacidade de refletir vão também se aperfeiçoando, anulando meus esforços.
Os ponteiros do relógio se apressam e me afobo para aproveitar os momentos de calmaria; a caligrafia, que já não é das melhores, piora; a caneta, que já é dura, passa a ter dificuldade a se adaptar à minha mão trêmula; a luz do sol vai indo embora e hoje faltou luz; o espaço do papel vai acabando e a preguiça de levantar para pegar mais folhas no maço vai aumentando.
Por acaso, o café não acabou e novamente uso ele para me ajudar durante o singelo momento de escassez de imaginação. Fico mais aflito ainda, olhando para o teto e para os lados, balançando as pernas, coçando o ombro, colocando os acentos nas letras erradas, um pequeno caos. Pensando bem, devo tentar empurrar meu ponto de vista a um lado mais positivo: Mary ainda está comigo, ouvindo apenas o silêncio do canto dos canários.
Merda! Entende que não estou me fazendo de vítima, mas há uma conspiração contra cósmica contra mim! Há alguns minutos, pairaram sobre mim os efeitos psicológicos, e agora os físicos! Como já disse, faltou luz e não posso ligar o ventilador, logo o nível de suor passa do limite de aceitável. Minhas axilas passam às minhas narinas um odor semelhante ao de queijo podre. Não bastasse isso, era absurdo o meu desejo de ir ao banheiro, algo que poucas vezes já aconteceu. É que, mais cedo, quando fui ao cômodo, o papel higiênico havia acabado, junto com minha integridade moral. E acabei deixando por isso mesmo. Agora, sofria as consequências disso. Soma-se a este fato uma terrível incontinência urinária, originada pelo consumo excessivo de café.
Eis um dilema, ir ao banheiro me organizar higienicamente e perder preciosos minutos de silêncio ou continuar escrevendo neste masoquista drama e aproveitando os momentos de tranquilidade (externa)? Putz, de novo não. De novo a existência apresenta-me duas únicas opções, as quais tenho que escolher uma e ambas misturam dor e amor, em equidade.
Não quero de repente interromper minha escrita, desejo escrever de uma vez só um romance, oras! Raramente tenho a oportunidade de fazer continuamente o que gosto. Por isso, crio um desfecho desleixado, sujo e abrupto para minha tímida narração, acabando com a vontade de algum tolo leitor que ousa ler parágrafo algum de minha autoria. Na tentativa de exceder minhas próprias expectativas, garrancho as últimas palavras com amargura.
Revoltado, pouso a caneta na mesa e me dirijo à cama. Me jogo nela, ignorando o sono de Mary, e por ali encontro outro amigo, o Ócio, com quem dialogo por alguns instantes até minhas pálpebras ficarem pesadas e me anunciarem que está na hora. Não na hora de dormir ou de sonhar, mas de acordar para ir à escola estudar biologia.
*Este texto foi manuscrito e depois digitado. Por isso, algumas frases podem não fazer tanto sentido.