terça-feira, 3 de junho de 2014

A aventura de um míope

"[...] Por fim, entendeu. Ele estava míope. O oculista lhe receitou um par de óculos. A partir daquele momento sua vida mudou, tornou-se cem vezes mais rica em interesse do que antes.

Cada vez que punha os óculos no nariz era uma emoção. Encontrava-se, digamos, num ponto de bonde, e era tomado pela tristeza de que tudo, pessoas e objetos ao redor, fosse tão genérico, banal, desgastado em ser do jeito que era, e ele ali se debatendo em um mundo de formas frouxas e cores esmaecidas. Punha os óculos para ler o número do bonde que chegava, e então tudo mudava; as coisas mais corriqueiras, até um sarrafo de andaime, desenhavam-se com tantos detalhes mínimos, com linhas tão nítidas, e os rostos, os rostos desconhecidos, cada um deles se cobria de sinaizinhos, pontinhos de barba, espinhas, matizes de expressão antes insuspeitos; e as roupas, discernia-se de que pano eram feitas, adivinhava-se o tecido, observava-se o puído das costuras. Olhar se tornava um divertimento, um espetáculo; não o olhar uma coisa ou outra: olhar. E assim Amilcare Carruga se esquecia de verificar o número do bonde, perdia um depois do outro, ou então subia num bonde errado. Via tal quantidade de coisas que era como se não visse mais nada. Teve que se acostumar pouco a pouco, aprender desde o começo o que era inútil olhar e o que era necessário.

[...] Mas o mundo mais novo que os óculos abriam para ele era o da noite. A cidade noturna, já envolta em nuvens informes de escuridão e de clarões coloridos, agora revelava divisões nítidas, relevos, perspectivas; as luzes tinham contornos precisos, os escritos em néon antes imersos num halo indistinto agora escandiam letra por letra. O bonito da noite, porém, era aquela margem de inderteminação que as lentes afugentavam à luz do dia, e que permanecia: Amilcare Carruga sentia o desejo de pôr os óculos e depois reparava que já estava com eles; a sensaçao de plenitude nunca emparelhava com o impulso da insatisfação; a obscuridade era o propósito de húmus sem fundo onde ele nunca se cansava de cavar. De sobre as ruas, acima das casas manchadas de janelas amarelas finalmente quadradas, erguia os olhos para o céu estrelado: e descobria que as estrelas não estavam esmigalhadas no fundo do céu como ovos quebrados, mas eram espetadelas agudíssimas de luz que abriam em torno de si lonjuras infinitas."