Num dia não como qualquer outro (era véspera de feriado!), eu perambulava pelos corredores da escola, notando os mais insólitos detalhes. Como de costume, andava com a cabeça para cima. Não sei, talvez me faça pensar melhor. O problema é que nesta situação eu estava no lado de fora do prédio e fazia muito sol. Sou esquecido e não lembrei de colocar os óculos escuros na mochila. Por isso, uma terrível sensação de vertigem ocupou minha cabeça quando passei pela porta da recepção. Logo topei com duas garotas, que aparentemente tinham uns treze anos. Eram do oitavo ano da tarde. O professor de Português delas - que também lecionava na minha turma - havia pedido para que elas me procurassem. Me foi solicitado que fizesse uma crônica. O tema? A escola. Prontamente, respondi que aceitaria a "missão". Era pra segunda-feira. Elas então se afastaram e subi para pegar meu material e ir para casa.
No carro, observava o mar bater furiosamente, escutava as folhas do coqueiros gritarem e sentia em minhas bochechas os beijos de minha namorada. Havia cinco pessoas no carro, conversando sobre o dia, perguntando entre si como seria o feriado e eu estava completamente distraído. Refletia que estava sem saída, travado. Quando escrevo por conta própria, em termos literários, é bom não ter tema. O súbito aparecimento de uma ideia, de uma estória, é o que move o artista a continuar sua obra. É um caso antagônico ao da redação escolar em que, se colocado sobre a pressão de escrever sobre assunto já estipulado, consigo responder bem. Ah Anderson, que tarefa você me deixou! Bem que eu poderia inventar uma desculpa, falar que estava doente, que havia viajado ou até que havia escrito tudo apaixonadamente em um pedaço de papel, mas que o cachorro havia comido. Mas não, lembrei do Código de Honra entre os homens - que eu mesmo inventei naquela mesma hora - e exclamei: "Hei de cumprir o combinado!".
Não era possível, agora borbulhavam criações pela minha cabeça! Eram tantas que não conseguia me segurar. Decerto, minha capacidade de controlar as emoções era pequena, tanto que pequenas ideias (como irritantes pulgas) pulavam da minha cabeça, já transbordada por um fluxo tão alto de ideias. Contudo, comecei a pensar demais e me exaltei: de forma abrupta, abri a porta do carro para entrar em casa.
O problema é que não havíamos chegado em casa ainda. Por sorte, nosso carro não estava em movimento. O sinal vermelho impedia que minha mãe acelerasse. Ufa!, estava são e salvo. Mas, por azar, outro carro estava em movimento. E este outro carro vinha com sede ao meu encontro. Tentei pedir a Deus que evitasse o choque, sei lá, de repente dialogar com Ele da maneira mais razoável possível resolveria tudo. Mas não deu pra fazer nada. Não passei nem do "Pão nosso de cada dia nos dai hoje"...
Incrivelmente, eu ainda estava acordado após ter sido arremessado uns vinte metros num asfalto quente e áspero. Conseguia enxergar pouco, tinha que espremer os olhos para visualizar algo de forma concreta. Vi minha mãe e, ao lado dela, meus irmãos. Minha namorada? Coisa chata, já estava me sufocando, perguntando como eu estava. Que saco!, não havia acontecido nada demais, não sei o porquê da preocupação. Quando o sangue do ferimento da testa escorreu sobre meus olhos, tive a visão tapada. Me senti um pirata, bêbado de dor.
Só fui ter a real noção do que tinha acontecido quando eu já estava no hospital. Disseram que foi armado um grande aparato para me levar em segurança e, por isso, fiquei feliz. Cercavam a pequena cama em que estava deitado minha família e minha namorada. Apesar de estar com as pessoas mais queridas, o tempo que fiquei imobilizado foi horrível. Não podia levantar e fiquei com vergonha ao tentar falar para a enfermeira que estava com diarreia. Muito ruim, tive que fazer na fralda. Comida? Diretamente da sonda ao estômago. Pois é, agora você me entende. Fui inibido de realizar as melhores coisas da vida.
Quero deixar claro que tudo isso não ocorreu por minha neurose, nem por
causa da mulher que dirigia o carro a 80 km/h numa rua estreita, de mão
única. E muito menos culpáveis eram os que estavam gritando ao meu lado
no carro. É tudo culpa do professor Anderson, isso sim! Explorou duas
pobres meninas, mandando-as ao andar de baixo do colégio, de forma que
elas exigissem de mim um texto, uma crônica bem elaborada! Ora bolas, onde isso já se viu! Mas tudo bem, sou um samaritano nato, pensei. Juntarei algumas palavras em poucas linhas e enviarei ao professor por e-mail. Questão de honra!
Eu escrevi, li e reli este texto. Me senti um pouco mal, porque nem tudo é culpa do Anderson, coitado. Ele está a serviço de quem? Da escola, obviamente! Ah, a maldita escola! Agora sim, tudo faz sentido: a escola contratou o professor, que inventou um trabalho e mandou as garotas, que me fizeram pensar freneticamente sobre o assunto. Daí, o pai de uma das meninas foi subornado e convencido a passar por cima de mim com o carro. Foi tudo uma conspiração contra mim! Tudo se encaixa perfeitamente: a escola queria me matar sem sujar as próprias mãos! Decidi, não vou mais fazer nenhuma droga de crônica! Peço desculpas se pareço inseguro, mas mudei de ideia completamente, meus caros leitores. Hoje eu já fui atingido, quase morri. É isso aí, quase morri! Portanto, salvem-se enquanto há tempo. Fujam da escola, pois é uma verdadeira carnificina camuflada!