quinta-feira, 22 de maio de 2014

Ao próximo recomeço

Abro os olhos remelados
Minhas costas doem,
Meus ombros estão babados
O teto cinza e o céu raiando.
Avalio um pouco mais
E já não mais te vejo ao meu lado
Sem surpresa, nem que tema
ou que lhe dependa.
Mas o flerte à ausência programada
Dá-me a certeza de ver o seu nome
A cada mão, a cada boca que me vem
fazendo meu sorriso engolir minha lágrima
até que vejo que não problemo com a outra.
Bom saber que não me é matança,
mas tilinta-me o desejo de borrar-me de ti
insurgindo a dor de não poder.
E ainda: não quero caricatura,
não quero apenas desenhar-te,
mas que invente comigo as bordas
deste café que transborda em mim
minha incapacidade de não suportar
ter de lidar com a próxima vez
que terei saudade de você.

"Com que suave doçura
me levanta da cama em que sonhava
profundas plantações perfumadas,
me anda os dedos pela pele e me deixa
no espaço, desamparado, até que o beijo
se posa curvo e recorrente
para que o fogo lento comece
a dança cadenciosa da fogueira
tecendo-se em rajadas, em hélices,
ir e vir de um furacão de fumo-
(Por que, depois,
o que é meu
é apenas um inundar-se entre as cinzas
sem um adeus, sem nada mais que o gesto
de liberar as mãos?)"

O problema de vagas no manicômio

Somos um pouco de cada um
O exterior do meu interior
Também é seu interior.

Mas então, me responda:
Por que continuamos vagando sozinhos?
Sozinhos ou solitários?
Sendo irremediavelmente paradoxal,
espectral e regrado no irregular
Nos fazendo agonia
Quando sequer nos prendemos
a um bloco monolítico

E nessa busca inacessível
Somos cada um apenas um só
- às vezes nem isso,
percorrendo bosques floridos
ou desertos sombrios

E quem há de questionar
se vivemos no inferno ou paraíso
irá sempre se deparar
com o doce improviso
de inebriantes condensações

de espumas perfumantes.
Como digo, meu amigo
que nada é totalmente preciso
(consigo)
e completo

longe de si...

Se por acaso discordar
Desta possível embriaguez
o que lhe ofereço, meu amigo,
é um possível encanto
proporcionado pelo acaso
próprio deste emblemático encontro,

que se fada em seu final
à uma pergunta marginal:
sobram ou faltam vagas em nosso manicômio?