Queria foder, era noite e ela estava de vestido curtinho. Fomos ao parquinho, onde estava escuro, e vi que ali tinha jogo. Levei-a para lá, coloquei sua mão em minhas calças, sussurrei meia dúzia de palavras em seu ouvido e mordi seus lábios. Era gol na certa. Então uma luz nos interrompeu enquanto eu deitava na areia. Era um policial. "É lugar de meter, guerreiro? O que você tem nessa sua bolsa aí, moça?"
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Imprevisível deleite?
Capítulo 1
Sente-se. Conforte-se. Dê profundos suspiros. Expurgue pensamentos que possam lhe levar à distração. Distraia as distrações. Afaste-se do computador, da TV, da família e até de outros livros. Encontre a melhor posição para ler, claro. Não se coloque em posição suscetível a um torcicolo. Deve achar, no mínimo, insólito eu estar lhe dando conselhos deliberadamente. Mas tudo se explica, a tudo há um motivo: agora você não irá começar a ler uma atrofiada narrativa de Paulo Coelho. E muito menos de algum outro pseudoescritor que procura obstinadamente por uma saída à literatura, escrevendo de forma superficial e descartável. Peço plenas desculpas aos fãs de Crepúsculo e Harry Potter, mas inúmeros traços débeis e levianos são inerentes aos mais celebrados best-sellers. Não tenho a intenção de massacrar o seu gosto literário, pois somos todos iguais e temos uma história a descobrirmos juntos. Afim de lhe facilitar o deleite das seguintes linhas, que seja explicado que neste enredo, temos três principais personagens: Joaquim, uma jovem da tribo de Onulalí e Joaco. Ao longo do texto, serão esmiuçados vários pormenores em uma pequena jornada destes célebres e carismáticos personagens. Contudo, cabe à você, meu estimado colega de leitura, dar chance à um jovem escritor. Sou avesso aos escritores que personificam o mundo capitalista contemporâneo, corrompido, dividido, ditatorial, votocrático, alienado e sem espaço para os mais tradicionais romances - os melhores.
O primeiro personagem a figurar na sua imaginação, caro leitor, é Joaco. Joaco jamais temeria queimar sua língua ao dizer que todo humano, que possua ao menos três neurônios ativos, já se sentiu cortejado pela insanidade. Ah, o irresistível charme da insanidade. Engana-se o leitor ilustre, dado ao gênio melancólico e de devaneios, que crê que tais psicoses e outras doidices sejam, exclusivamente, dos possuidores de grande cultura literária e filosófica. Inúmeros já tiveram a sensação de que, apesar de todos os esforços dos muitos anos, continuavam andando em círculos, girando sobre o mesmo ponto, sem nunca o encontrar.
Sente-se. Conforte-se. Dê profundos suspiros. Expurgue pensamentos que possam lhe levar à distração. Distraia as distrações. Afaste-se do computador, da TV, da família e até de outros livros. Encontre a melhor posição para ler, claro. Não se coloque em posição suscetível a um torcicolo. Deve achar, no mínimo, insólito eu estar lhe dando conselhos deliberadamente. Mas tudo se explica, a tudo há um motivo: agora você não irá começar a ler uma atrofiada narrativa de Paulo Coelho. E muito menos de algum outro pseudoescritor que procura obstinadamente por uma saída à literatura, escrevendo de forma superficial e descartável. Peço plenas desculpas aos fãs de Crepúsculo e Harry Potter, mas inúmeros traços débeis e levianos são inerentes aos mais celebrados best-sellers. Não tenho a intenção de massacrar o seu gosto literário, pois somos todos iguais e temos uma história a descobrirmos juntos. Afim de lhe facilitar o deleite das seguintes linhas, que seja explicado que neste enredo, temos três principais personagens: Joaquim, uma jovem da tribo de Onulalí e Joaco. Ao longo do texto, serão esmiuçados vários pormenores em uma pequena jornada destes célebres e carismáticos personagens. Contudo, cabe à você, meu estimado colega de leitura, dar chance à um jovem escritor. Sou avesso aos escritores que personificam o mundo capitalista contemporâneo, corrompido, dividido, ditatorial, votocrático, alienado e sem espaço para os mais tradicionais romances - os melhores.
O primeiro personagem a figurar na sua imaginação, caro leitor, é Joaco. Joaco jamais temeria queimar sua língua ao dizer que todo humano, que possua ao menos três neurônios ativos, já se sentiu cortejado pela insanidade. Ah, o irresistível charme da insanidade. Engana-se o leitor ilustre, dado ao gênio melancólico e de devaneios, que crê que tais psicoses e outras doidices sejam, exclusivamente, dos possuidores de grande cultura literária e filosófica. Inúmeros já tiveram a sensação de que, apesar de todos os esforços dos muitos anos, continuavam andando em círculos, girando sobre o mesmo ponto, sem nunca o encontrar.
Joaco sabia que, com todas as divagações, digressões e análises a partir de dados empíricos, não são tantos que ainda procuram por coerência em algum conjunto relativamente complexo de indivíduos, permanentemente associados e equipados com padrões culturais. Tentam as criaturas medonhas lograr todas as próprias regras e convicções, mas ainda assim continuam à procura de algo que, aparentemente, se auto-denomina - de forma vergonhosa - sociedade. Sim, esta massa pegajosa que ousa se proclamar mundo. Em meio à profundas crises existencialistas, é grande a participação nas meditações dos integrantes da tribo Onulalí destes insensatos seres que, por serem - teoricamente - dotados de maior nível intelectual dentre as outras espécies mundanas, se intitulam donos desta minúscula esfera armilar que habitam há pouco tempo.
Joaco, onulaliuense, filho de português que, perdido de sua terra natal, algum dia corria por uma linda praia com um tesão extraordinário. Era uma ensolarada tarde de verão e o português resolveu ir arranjar uma garota - não precisava ser linda - de Onulalí para dar uma trepada. Após procuras e tentativas frustradas de descoberta mata adentro para satisfazer suas necessidades sexuais, Joaquim enfim encontrou uma bela jovem de Onulalí.
De pau gozado e mente sã, o perdido navegante português deparou-se então com a beleza da ilha que havia sido exilado. Jamais poderia ter imaginado existir coisas daquele tipo. E, caro leitor, não falo das bocas carnudas da Onulalí. Não do olhar "pseudoinocente". Muito menos de seus fabulosos e esculturais seios marrons, que estendiam-se firmes e perfeitamente redondos. Preste atenção, não perca o foco. Quando ler, tente não visualizar a delicadeza do rosto da pura Anita. Clamo pela sua atenção. Pare de imaginar os olhos da jovem, mais escuros que a noite, que perfuravam qualquer tipo de entranha que ousasse tentar resistir às tentações que apenas uma mulher poderia proporcionar. Os cabelos, escuros, nem se fala. E que cabelos longos eram aqueles. Dignos de puxões veementes, paixões arrepiantes e de uma suave brisa para esvoaçá-los. A vegetação do local (não da vagina da moça, meu amigo leitor) era de vivaz exuberância. Não se havia certeza se era apenas a reflexão da luz do sol nas folhas e nos troncos que embelezavam o lugar. Entraram na disputa a clareza das águas do rio, puro, e também um oceano, logo ao lado do rio. Mas não um oceano qualquer. Este, era feito por grãos. Grãos de areia. Brancos, mais brancos que a única nuvem que ousava dar as caras naquele belo dia. Contudo, Joaquim sentiu falta de uma coisa e não sabia bem o que era. Sentia um vazio que se propunha como insuperável e impossível de ser identificado. Mais uma vez suas reflexões o faziam sérios, conflituosos e atraentes convites ao caminho da insânia.
Olhando para o lado e vendo a bela mulata dormir de forma angelical, em paz, sobre as largas folhas de uma grande bananeira, Joaquim - movido pela sua insaciável ansiedade - resolveu andar. Caminhar e pensar. Pensar e tirar conclusões. Tirar conclusões e sanar a curiosidade que o levava ao ruim pensamento. Obviamente é este o que você, caro leitor, pensou ser o caminho mais curto. Tal raciocínio seria excelente, se exato. Sinto em dizer que falhou aqui sua proverbial sagacidade, caro leitor.
Chegamos ao quinto ou sexto parágrafo e você (sim, você!) ainda está lendo o romance. Como se sente? Está ficando cansado? Com vertigem? Tonto? Talvez com dor nas têmporas. E não fique bravo comigo, é o seu irmão que está articulando pilhérias ao seu lado. Vá logo. Feche a porta na cara dele. De preferência o avise que não está lendo algo qualquer. Está batendo um papo com algum desconhecido, de fato, e que insiste em tagarelar e não continuar a narrar o enredo. Mas conte-me, estou ansioso: o que pensa disso? Por mim, adoro conversar com você, superestimado leitor. Para algumas pessoas meu diálogo com quem lê, contrário às regras ortodoxas, os fará perder o interesse pelo romance. Erro evidente e ingênuo. Tenho certeza absoluta de que está ansioso pelo desenrolar da estória. Mas acalme-se meu amigo, tenho profundo conhecimento do que sente. Um misto de frustração por estar lendo um romance que se prende constantemente à uma conversação peculiar e insólita com a cada vez mais esvaída empolgação de querer saber o que o porvir lhe espera nas próximas linhas.
Mais inesperado que este parágrafo acima, apenas o que ocorreu ao nosso personagem português: nada. Sim, caros colegas de leitura. Nada, não aconteceu nada. Coisa chata, não? Talvez o amável Joaquim não estivesse tão concentrado. Há certa probabilidade de que ele apenas não havia reunido, suficientemente, um número necessário de informações em sua audaz mente. Ávido por novas descobertas, conclusões e olhares boquiabertos, Joaquim não se retrai quando se depara com alguns obstáculos, mesmo que estes sejam internos. Atrelava à sua pequena bagunça as indagações aleatórios como de onde decantam os sonhos e de quem é a culpa pelo mundo obtuso que costumava habitar. Sim, claro, confuso e desnecessário para o desenvolvimento do raciocínio inicial, começado quando deixou a bela morena deitada em sono profundo. Não fique chateado, também aguardo pacientemente pelo que Joaquim nos mostrará.
Conquanto, cabe agora revelar qual o real objetivo de seu pequeno passeio pelas mais profundas e abstratas perturbações. Simplesmente, Joaquim queria exorcizar os mais impactantes demônios que corroíam e putrefaziam suas sustentações psicológicas e viscerais. Não se tratava apenas de trazer à consciência as recordações recalcadas. Precisava se libertar do sentimento que, lhe é ainda bem vigorosa, de repressão.
Porém, retratando desta maneira a situação fica mal esclarecida, vaga e superficial, quase vil. Esta caminhada, ocorrida ao lado do barulho (ou será o silêncio?) da quebra das ondas da praia de uma ilha quase deserta, se passa em meio à uma situação de penumbras, em Portugal. Dois anos antes, 3 meses antes de seu nau naufragar, a Europa passava por enormes transformações no contexto político-econômico. O sistema, já não mais dominados por um déspota, passou a ser ligeiramente mais igualitário, de fato. Todavia, isto deu abertura a uma nova classe, a da burguesia. Assim, o capital e o desejo ardente por consistências materiais tornaram-se os objetos de maior manifestação ativa. As ruas escuras, locais de penumbra, onde os sábios se recolhiam, passaram a ter a situação piorada. A partir dali, em geral, os estudiosos começaram a ter menos valor que os estúpidos. Joaquim ficava extremamente confuso com o fato de que vivia num lugar onde se deseja o progresso construindo menos estradas e mais muros; se tolera a miséria, o crime, as guerras, mas se repudia o amor entre os do mesmo sexo.
Em suma, eis a questão exposta a todos nós: as tentativas frustradas de Joaquim ao tentar entender o mundo raquítico em que viveu durante mais de três décadas de sua vida, aonde ou se é desnutrido de corpo ou de espírito. Jamais toleraria uma concepção de mundo como esta. E o pior de tudo é que estava sozinho, literalmente. Sentia revolta e pena, não só pelo seu eu passado, mas também pelos vizinhos, pelos amigos e pela família.
Mais inesperado que este parágrafo acima, apenas o que ocorreu ao nosso personagem português: nada. Sim, caros colegas de leitura. Nada, não aconteceu nada. Coisa chata, não? Talvez o amável Joaquim não estivesse tão concentrado. Há certa probabilidade de que ele apenas não havia reunido, suficientemente, um número necessário de informações em sua audaz mente. Ávido por novas descobertas, conclusões e olhares boquiabertos, Joaquim não se retrai quando se depara com alguns obstáculos, mesmo que estes sejam internos. Atrelava à sua pequena bagunça as indagações aleatórios como de onde decantam os sonhos e de quem é a culpa pelo mundo obtuso que costumava habitar. Sim, claro, confuso e desnecessário para o desenvolvimento do raciocínio inicial, começado quando deixou a bela morena deitada em sono profundo. Não fique chateado, também aguardo pacientemente pelo que Joaquim nos mostrará.
Conquanto, cabe agora revelar qual o real objetivo de seu pequeno passeio pelas mais profundas e abstratas perturbações. Simplesmente, Joaquim queria exorcizar os mais impactantes demônios que corroíam e putrefaziam suas sustentações psicológicas e viscerais. Não se tratava apenas de trazer à consciência as recordações recalcadas. Precisava se libertar do sentimento que, lhe é ainda bem vigorosa, de repressão.
Porém, retratando desta maneira a situação fica mal esclarecida, vaga e superficial, quase vil. Esta caminhada, ocorrida ao lado do barulho (ou será o silêncio?) da quebra das ondas da praia de uma ilha quase deserta, se passa em meio à uma situação de penumbras, em Portugal. Dois anos antes, 3 meses antes de seu nau naufragar, a Europa passava por enormes transformações no contexto político-econômico. O sistema, já não mais dominados por um déspota, passou a ser ligeiramente mais igualitário, de fato. Todavia, isto deu abertura a uma nova classe, a da burguesia. Assim, o capital e o desejo ardente por consistências materiais tornaram-se os objetos de maior manifestação ativa. As ruas escuras, locais de penumbra, onde os sábios se recolhiam, passaram a ter a situação piorada. A partir dali, em geral, os estudiosos começaram a ter menos valor que os estúpidos. Joaquim ficava extremamente confuso com o fato de que vivia num lugar onde se deseja o progresso construindo menos estradas e mais muros; se tolera a miséria, o crime, as guerras, mas se repudia o amor entre os do mesmo sexo.
Em suma, eis a questão exposta a todos nós: as tentativas frustradas de Joaquim ao tentar entender o mundo raquítico em que viveu durante mais de três décadas de sua vida, aonde ou se é desnutrido de corpo ou de espírito. Jamais toleraria uma concepção de mundo como esta. E o pior de tudo é que estava sozinho, literalmente. Sentia revolta e pena, não só pelo seu eu passado, mas também pelos vizinhos, pelos amigos e pela família.
Mediante consistente intangibilidade de uma aparente utópica resposta, não superou sua comoção aflitiva que possuía o receio de que este algo, tão esperado, se sucedesse. Cansado intelectualmente e observando o iminente pôr do sol, decidiu por voltar ao local em que havia gentilmente deixado a rapariga olulaiuense. Aproximando-se do corpo da mulher, já não mais adormecido, a conclusão da busca de sua catarse, quase deu-se equivocadamente, já que o frêmito de um coco caindo de um coqueiro interrompeu as ações psicanalíticas de Joaquim.
Os ponteiros de segundos e minutos do relógio de bolso de Joaquim brincavam como duas crianças com um pião, e avançavam de forma sedenta até que não se pudesse ver a luz do sol. Dali, nosso personagem português se viu perdido. Não havia ninguém. E estava sem a moça. Tinha os pés na areia, ouvia as ondas baterem e o grilo cantar. Ademais, um silêncio estonteante. Só enxergava mato. Coqueiros destoavam do visual que tinha no momento, pois a pequena floresta já havia se transformado num grande lamaçal. Mas, é claro, isso aconteceu porque chovia muito. Perdão pelo esquecimento.
Os ponteiros de segundos e minutos do relógio de bolso de Joaquim brincavam como duas crianças com um pião, e avançavam de forma sedenta até que não se pudesse ver a luz do sol. Dali, nosso personagem português se viu perdido. Não havia ninguém. E estava sem a moça. Tinha os pés na areia, ouvia as ondas baterem e o grilo cantar. Ademais, um silêncio estonteante. Só enxergava mato. Coqueiros destoavam do visual que tinha no momento, pois a pequena floresta já havia se transformado num grande lamaçal. Mas, é claro, isso aconteceu porque chovia muito. Perdão pelo esquecimento.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Mais um clichê
É clichê
Eu sei
Todos criam por mulheres
Tal éter
Que inebria o inspirar
Ah, a arte ingrata
Tento no curto e grosso
E sobre curvas fico sem caprichar
O desenhar da mulher
Que quero lhes apresentar
Tal como uma ilusão desconhecida
Ela gosta de andar na ponta dos pés
Sussurra as gírias
Bebendo e sambando
Espero um dia poder deitar para dormir
E respirar aliviado
Pois penso a agonia da distância
Afinal, mal nos falamos
E já escrevo pensando em você
Rezo para que possamos nos conhecer melhor
Que olhe em meus olhos
E que dê um sorriso discreto
És uma cachaça,
Não negue,
Me deixa ébrio!
Parece que lhe conheço faz tempo
Mas apenas nos vimos semana passada
Lá o tempo corre depressa
Lá nem sei seu sobrenome
E já estamos juntos lá
Num poema de Vinícius
Seu perfume e flor
Me provam que não és apenas uma paixão
Mas sim uma viagem
Que me desloca para águas de outro mar
E que o céu seja aí
Pois quando te vejo
A vivacidade é o meu desejo
Eu sei
Todos criam por mulheres
Tal éter
Que inebria o inspirar
Ah, a arte ingrata
Tento no curto e grosso
E sobre curvas fico sem caprichar
O desenhar da mulher
Que quero lhes apresentar
Tal como uma ilusão desconhecida
Ela gosta de andar na ponta dos pés
Sussurra as gírias
Bebendo e sambando
Espero um dia poder deitar para dormir
E respirar aliviado
Pois penso a agonia da distância
Afinal, mal nos falamos
E já escrevo pensando em você
Rezo para que possamos nos conhecer melhor
Que olhe em meus olhos
E que dê um sorriso discreto
És uma cachaça,
Não negue,
Me deixa ébrio!
Parece que lhe conheço faz tempo
Mas apenas nos vimos semana passada
Lá o tempo corre depressa
Lá nem sei seu sobrenome
E já estamos juntos lá
Num poema de Vinícius
Seu perfume e flor
Me provam que não és apenas uma paixão
Mas sim uma viagem
Que me desloca para águas de outro mar
E que o céu seja aí
Pois quando te vejo
A vivacidade é o meu desejo
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Meia-noite em Rio das Ostras
Meu humor se passa pela condição de meus sentidos. Minha capacidade de concentração se estabelece a partir do equilíbrio dos objetos e das pessoas ao meu redor, ou seja, sou um arrogante, teimoso e sensível pseudoescritor que apenas consegue sentar numa mesa e escrever quando há silêncio na casa. Como isso é um fato raro, deduz-se que minha obra se restringe aos períodos de inspiração em que todos, ou quase todos, estão fora de casa. Este é, sem dúvidas, o maior motivo para querer e gostar de ficar em casa sozinho. Ainda havendo tal possibilidade de autonomia para envergonhar as memórias de Dostoiévski e Kafka, não estou imune à interferência externa. A vizinha pode (re) começar a gritar com os cachorros, pode passar um caminhão ou uma moto barulhenta na rua de casa, o carteiro talvez bata na porta para uma entrega, o telefone pode tocar a qualquer hora, enfim, inúmeras situações que podem ocorrer sem minha permissão.
Enquanto tento amortecer a caneta na minha mão direita, tento buscar inspiração no café que está na caneca verde com a figura gravada do Che Guevara que comprei na Argentina. Um gole do quente e amargo me ajudam a despertar e desce garganta abaixo como um antídoto pela moleza que Mary me deu. Já que a citei, deixe-me apresentá-la. Mary é uma das mais selvagens putas que o mundo pode oferecer. Está sempre com calor e usa pouca roupa, em um estilo mais animalesco possível. Insisto que sussurre suas palavras no pé de meu ouvido enquanto estiver comigo, mas não me dá atenção. Parece que me transporto a outra realidade quanto comungo de sua presença: a dimensão dos surdos, o mais contraditório dos mundos que meu intelecto pode criar. Quando estou lá, meus olhos encolhem e minha visão fica embaçada, minha fome aumenta, uma certa pressão y passa a ser exercida em meus ouvidos e fico maciamente tonto. Por auto, é uma realidade muito ruim, defeituosa. Mas aí é que está o grande barato: Mary me oferece um tele-transporte psíquico, onde relaxo e meu poder de anular as variáveis externas se torna infinitamente maior. Puxa vida, quanta coisa dá pra ver, pensar, imaginar, divagar e refletir neste mundo dos surdos! Minha surdez me permite o impossível, mas Mary me amola demais. Por isso o café se faz tão necessário, aguça o sentido psicomotor, tirando-me da inércia e, então, me permitindo colocar no papel o que sinto.
Porém, nada é tão lindo, dócil e fácil demais, como diria vovó. Sou um mensageiro do meu intelecto e não de outros espíritos. Não fico em estado total de transe para conseguir escrever tão rápido, de forma que nem metade do que percorre minhas ruas neurais seja traduzido em tinta no papel. Com o tempo, vou melhorando minha velocidade de escrita, mas isso decorre ao mesmo passo que a agilidade de raciocínio e capacidade de refletir vão também se aperfeiçoando, anulando meus esforços.
Os ponteiros do relógio se apressam e me afobo para aproveitar os momentos de calmaria; a caligrafia, que já não é das melhores, piora; a caneta, que já é dura, passa a ter dificuldade a se adaptar à minha mão trêmula; a luz do sol vai indo embora e hoje faltou luz; o espaço do papel vai acabando e a preguiça de levantar para pegar mais folhas no maço vai aumentando.
Por acaso, o café não acabou e novamente uso ele para me ajudar durante o singelo momento de escassez de imaginação. Fico mais aflito ainda, olhando para o teto e para os lados, balançando as pernas, coçando o ombro, colocando os acentos nas letras erradas, um pequeno caos. Pensando bem, devo tentar empurrar meu ponto de vista a um lado mais positivo: Mary ainda está comigo, ouvindo apenas o silêncio do canto dos canários.
Merda! Entende que não estou me fazendo de vítima, mas há uma conspiração contra cósmica contra mim! Há alguns minutos, pairaram sobre mim os efeitos psicológicos, e agora os físicos! Como já disse, faltou luz e não posso ligar o ventilador, logo o nível de suor passa do limite de aceitável. Minhas axilas passam às minhas narinas um odor semelhante ao de queijo podre. Não bastasse isso, era absurdo o meu desejo de ir ao banheiro, algo que poucas vezes já aconteceu. É que, mais cedo, quando fui ao cômodo, o papel higiênico havia acabado, junto com minha integridade moral. E acabei deixando por isso mesmo. Agora, sofria as consequências disso. Soma-se a este fato uma terrível incontinência urinária, originada pelo consumo excessivo de café.
Eis um dilema, ir ao banheiro me organizar higienicamente e perder preciosos minutos de silêncio ou continuar escrevendo neste masoquista drama e aproveitando os momentos de tranquilidade (externa)? Putz, de novo não. De novo a existência apresenta-me duas únicas opções, as quais tenho que escolher uma e ambas misturam dor e amor, em equidade.
Não quero de repente interromper minha escrita, desejo escrever de uma vez só um romance, oras! Raramente tenho a oportunidade de fazer continuamente o que gosto. Por isso, crio um desfecho desleixado, sujo e abrupto para minha tímida narração, acabando com a vontade de algum tolo leitor que ousa ler parágrafo algum de minha autoria. Na tentativa de exceder minhas próprias expectativas, garrancho as últimas palavras com amargura.
Revoltado, pouso a caneta na mesa e me dirijo à cama. Me jogo nela, ignorando o sono de Mary, e por ali encontro outro amigo, o Ócio, com quem dialogo por alguns instantes até minhas pálpebras ficarem pesadas e me anunciarem que está na hora. Não na hora de dormir ou de sonhar, mas de acordar para ir à escola estudar biologia.
*Este texto foi manuscrito e depois digitado. Por isso, algumas frases podem não fazer tanto sentido.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Até quando?
Vivemos em um mundo de aparências, superficial e alienado. A cultura é amplamente afetada. Acaba sendo inviável, financeiramente, escolher ser um artista. Pintar, filmar, escrever, atuar, dançar e compor são alguns dos verbos mais desvalorizados: carregam grande engajamento político e crítica incisiva ao sistema vigente. Como é sabido por todos, impera o individualismo e o egoísmo. Assim, se sentindo ameaçados pelo caráter de persuasão da arte ao povo, o alto escalão do poder administrativo se esforça ao máximo para cumprir sua tática de alastrar culturas de distração (jogos, músicas, boates) e, consequentemente, a alienação repulsiva. Não querem que nenhuma forma de manifestação profunda e combatente ao sistema ganhe notoriedade.
O samba, desde seu início, tornava externa as injustiças sociais e políticas e puxava muitas pessoas com a batida ritmada dos pandeiros, chocalhos e cuíca. De uma forma ou de outra, educava e informava. Contudo, hoje mais se vê um samba de entretenimento (o pagode) do que de denúncia. Beth Carvalho, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Noel Rosa e Cartola são alguns dos autores das antigas que compunham letras que processavam diversos assuntos e camadas da sociedade. Por ter um conteúdo mais politizado, não interessa tanto à mídia que se coloque no ar esse tipo de samba.
Na década de 90, borbulhou por todos os cantos as letras dos Racionais MC's. Foi instigada a reflexão, a reinvidicação e a luta, principalmente contra o racismo. Uns dos poucos que se mantiveram fiéis ao conceito de rap (ritmo e poesia), trabalhando o lirismo de forma embasada, bem articulada e informativa.
Mais recentemente, o funk saiu do armário. Surgiu do James Brown, foi para o morro carioca e apropriado. Mistura o frevo, com melodia de samba e batida de afro. Música preta, pobre, expressão de identidade cultural. Brotou na década de 90 com paródias de músicas consagradas e se tornou sucesso na periferia. Como o rap e o samba, o funk também foi corrompido: hoje, a maioria das letras faz alusão ao sexo explícito.
Em 2006, um grupo de jovens formou a Cone Crew Diretoria, permeando nas músicas a nossa relação com o poder público, os policiais e a produção cultural. Não levantam nenhuma bandeira específica, porém põem em voga a discussão política. A essa nova geração que é encarregada a missão de transformar nosso cenário de derrota. A arte se faz por instinto e sem o acesso às técnicas de construção de uma música, filme ou livro não se consegue uma boa produção. Deve ser ampliada a condição dos jovens de poder explorar o mundo artístico, para que um dia deixemos de ser fantoches desta perversa geografia oligárquica, que segue nos decompondo cada vez mais.
domingo, 9 de setembro de 2012
Maldita escola!
Num dia não como qualquer outro (era véspera de feriado!), eu perambulava pelos corredores da escola, notando os mais insólitos detalhes. Como de costume, andava com a cabeça para cima. Não sei, talvez me faça pensar melhor. O problema é que nesta situação eu estava no lado de fora do prédio e fazia muito sol. Sou esquecido e não lembrei de colocar os óculos escuros na mochila. Por isso, uma terrível sensação de vertigem ocupou minha cabeça quando passei pela porta da recepção. Logo topei com duas garotas, que aparentemente tinham uns treze anos. Eram do oitavo ano da tarde. O professor de Português delas - que também lecionava na minha turma - havia pedido para que elas me procurassem. Me foi solicitado que fizesse uma crônica. O tema? A escola. Prontamente, respondi que aceitaria a "missão". Era pra segunda-feira. Elas então se afastaram e subi para pegar meu material e ir para casa.
No carro, observava o mar bater furiosamente, escutava as folhas do coqueiros gritarem e sentia em minhas bochechas os beijos de minha namorada. Havia cinco pessoas no carro, conversando sobre o dia, perguntando entre si como seria o feriado e eu estava completamente distraído. Refletia que estava sem saída, travado. Quando escrevo por conta própria, em termos literários, é bom não ter tema. O súbito aparecimento de uma ideia, de uma estória, é o que move o artista a continuar sua obra. É um caso antagônico ao da redação escolar em que, se colocado sobre a pressão de escrever sobre assunto já estipulado, consigo responder bem. Ah Anderson, que tarefa você me deixou! Bem que eu poderia inventar uma desculpa, falar que estava doente, que havia viajado ou até que havia escrito tudo apaixonadamente em um pedaço de papel, mas que o cachorro havia comido. Mas não, lembrei do Código de Honra entre os homens - que eu mesmo inventei naquela mesma hora - e exclamei: "Hei de cumprir o combinado!".
Não era possível, agora borbulhavam criações pela minha cabeça! Eram tantas que não conseguia me segurar. Decerto, minha capacidade de controlar as emoções era pequena, tanto que pequenas ideias (como irritantes pulgas) pulavam da minha cabeça, já transbordada por um fluxo tão alto de ideias. Contudo, comecei a pensar demais e me exaltei: de forma abrupta, abri a porta do carro para entrar em casa.
O problema é que não havíamos chegado em casa ainda. Por sorte, nosso carro não estava em movimento. O sinal vermelho impedia que minha mãe acelerasse. Ufa!, estava são e salvo. Mas, por azar, outro carro estava em movimento. E este outro carro vinha com sede ao meu encontro. Tentei pedir a Deus que evitasse o choque, sei lá, de repente dialogar com Ele da maneira mais razoável possível resolveria tudo. Mas não deu pra fazer nada. Não passei nem do "Pão nosso de cada dia nos dai hoje"...
Incrivelmente, eu ainda estava acordado após ter sido arremessado uns vinte metros num asfalto quente e áspero. Conseguia enxergar pouco, tinha que espremer os olhos para visualizar algo de forma concreta. Vi minha mãe e, ao lado dela, meus irmãos. Minha namorada? Coisa chata, já estava me sufocando, perguntando como eu estava. Que saco!, não havia acontecido nada demais, não sei o porquê da preocupação. Quando o sangue do ferimento da testa escorreu sobre meus olhos, tive a visão tapada. Me senti um pirata, bêbado de dor.
Só fui ter a real noção do que tinha acontecido quando eu já estava no hospital. Disseram que foi armado um grande aparato para me levar em segurança e, por isso, fiquei feliz. Cercavam a pequena cama em que estava deitado minha família e minha namorada. Apesar de estar com as pessoas mais queridas, o tempo que fiquei imobilizado foi horrível. Não podia levantar e fiquei com vergonha ao tentar falar para a enfermeira que estava com diarreia. Muito ruim, tive que fazer na fralda. Comida? Diretamente da sonda ao estômago. Pois é, agora você me entende. Fui inibido de realizar as melhores coisas da vida.
Quero deixar claro que tudo isso não ocorreu por minha neurose, nem por
causa da mulher que dirigia o carro a 80 km/h numa rua estreita, de mão
única. E muito menos culpáveis eram os que estavam gritando ao meu lado
no carro. É tudo culpa do professor Anderson, isso sim! Explorou duas
pobres meninas, mandando-as ao andar de baixo do colégio, de forma que
elas exigissem de mim um texto, uma crônica bem elaborada! Ora bolas, onde isso já se viu! Mas tudo bem, sou um samaritano nato, pensei. Juntarei algumas palavras em poucas linhas e enviarei ao professor por e-mail. Questão de honra!
Eu escrevi, li e reli este texto. Me senti um pouco mal, porque nem tudo é culpa do Anderson, coitado. Ele está a serviço de quem? Da escola, obviamente! Ah, a maldita escola! Agora sim, tudo faz sentido: a escola contratou o professor, que inventou um trabalho e mandou as garotas, que me fizeram pensar freneticamente sobre o assunto. Daí, o pai de uma das meninas foi subornado e convencido a passar por cima de mim com o carro. Foi tudo uma conspiração contra mim! Tudo se encaixa perfeitamente: a escola queria me matar sem sujar as próprias mãos! Decidi, não vou mais fazer nenhuma droga de crônica! Peço desculpas se pareço inseguro, mas mudei de ideia completamente, meus caros leitores. Hoje eu já fui atingido, quase morri. É isso aí, quase morri! Portanto, salvem-se enquanto há tempo. Fujam da escola, pois é uma verdadeira carnificina camuflada!
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Ócio, prazer
Eu estava, de fato, viajando. Não só por estar me divertindo em cima do carrinho, mas também no sentido figurativo. Estava preso às minhas reflexões e divagações (ou será que estava em meio à liberdade?). Imaginava situações e fatos devaneados, em um plano distinto, num universo paralelo, quando subitamente a mulher do caixa do supermercado mais caro da cidade, me gritou. Pedia para eu colocar os produtos que eu iria comprar no caixa, afinal já eram 2h e creio que ela não queria perder muito tempo para chegar em casa, já que era dia de Faustão.
Completando a compra e o pagamento, pus-me a pedalar sobre outro objeto móvel: a bicicleta. Sobre ela, voltava para casa quando vi uma enorme sombra ir de encontro à minha posição. Me assustei, mas logo vi que era uma grande nuvem tapando o reflexo do sol. O vulto, contudo, não ocultava odores. A vizinha lavava o chão de sua garagem e em frente a minha casa, perambulando um terrível cheiro de bosta de cachorro, impregnando todos os cômodos possíveis da casa.
Imediatamente, fiquei indignado. Já havia a recomendação à vizinha que escoasse a água para o outro lado da rua, já que sua casa era a mais próxima de um bueiro. Além da contestação misantrópica de que as pessoas plebeias de nada construtivo servem, me senti extenuado mentalmente. Ora, era domingo, o meu dia. Já havia me dado o trabalho de sair de casa e comprar ovos para o paupérrimo almoço. Mas não é por aí que as coisas devem rolar: hoje é domingo. O dia de descanso, o dia do ócio.
E talvez este fosse o principal motivo de desprezo e repugnância com a vizinha: não respeitava o ócio alheio. Afinal, lastimáveis sertanejos em volume alto e berros com os cachorros estragam o dia de qualquer vizinho sensato. Bom senso este que me levou à uma pequena grande constatação de que as pessoas não tem a real ciência da relevância do ócio à nossa sociedade. Esta é tamanha que, com o passar do tempo passou de substantivo comum a substantivo próprio. O Ócio nada mais é do que aquele cara barrigudo, cabeludo, cansado, presunçoso, de barba a fazer, de banho a tomar e saco a coçar. Resumindo, eu sou a personificação do Ócio.
Putz, como sou distraído. Esqueci de me apresentar. Meu nome é Ócio, muito prazer. Deve me reconhecer dos seus fatídicos dias de domingo, mas me mudei: agora possuo casa fixa, RG e não me divido mais com ninguém. Agora sou poderoso, tenho meu próprio dia. Pode até achar que possui seus momentos ociosos, mas aí é que se engana, caro leitor. São apenas divagações. Eu já incorporei o ócio de forma tão profunda, que não sobrou nada para ninguém.
Decerto muitas perguntas já lhe passaram em sua cabeça. Algumas do tipo melancólico como: "O que é a nossa vida?"; "Qual o nosso objetivo aqui no planeta Terra?"; e "Será que somos inócuos sobre as interações da sociedade?" até os que levam à deliberações mais concisas e críticas, como : "Será que temos todos os direitos inabalavelmente garantidos pela Constituição?"; "Será que somos mesmos livres?"; e, finalmente, "O que é liberdade?"
O que me leva a um ponto intrínseco a estas questões, que é o do questionamento da definição de liberdade. O ilustre leitor pode até achar que é a potencia de ultrapassar qualquer obstaculo natural, fático. Ou dizer que é autonomia. Até utopia.
De uma coisa tenho certeza, você pode não ter o direito de ir e vir (dependendo do lugar pode custar até 9 reais) e clamar por ele, por exemplo. Mas há uma coisa que poderá perceber e até tentar reivindicar. Sou eu, meu caro. Sim, de novo eu, o Ócio. Você me associa ao domingo. Gosta de nós dois porque, teoricamente, é quando tudo é vazio. Não falo só da televisão ou das ruas, mas de todo o universo cósmico. Sou mais influente em sua vida do que a heroína pode ser. Não há nada mais difícil do que sair do vício de ficar deitado na cama. Eu lhe proporciono isso. Você luta por mim, trabalha por mim. Tem dois ou três empregos para arranjar sua zona de conforto e poder, ao menos por um dia, descansar e "ociar". A cadeira de seu escritório se transfigura e se transforma numa cama ou num sofá.
Não adianta, qualquer argumento que utilizar contra mim será refutável: dos demônios, sou o mais apaixonante. Eu estou para você assim como o álcool está para o alcólatra. É inegável que sou inerente às suas necessidades naturais. Comigo, não há problemas, não há nada.
Não adianta, qualquer argumento que utilizar contra mim será refutável: dos demônios, sou o mais apaixonante. Eu estou para você assim como o álcool está para o alcólatra. É inegável que sou inerente às suas necessidades naturais. Comigo, não há problemas, não há nada.
terça-feira, 31 de julho de 2012
Imprevisível imprevisibilidade
Uma linda mulher encontrava-se sentada à mesa de um bar fino, que tocava apenas bossa e blues, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Chamava a atenção de todos. Um decote provocante, lábios rosas e delicados, pouca maquiagem, coxas exuberantes, um cabelo longo, negro e liso. Seus brincos, perolados, combinavam com a sua pele clara, branca igual leite, que reluzia, mesmo com o ambiente rústico de pouca iluminação do bar. Certamente, os vários atraídos pela série de características enumeradas acima ficavam mais ansiosos ainda a cada vez que a mulher olhava o celular. Não se sabe se para conferir se havia alguma mensagem, ligação, quiçá até para ver a hora. E era isso o que justamente mais intrigava os tentados a solicitar pela ocupação da cadeira vazia ao lado da mulher. Mas espere, caro leitor, não se entusiasme tanto. Não falarei de uma mulher que ronda as ruas cariocas como se fossem um grande meretrício. Também não haverão apelos sexuais e ninguém tentará cortejá-la enquanto toma sua caipirinha de limão.
Mas ela sim, esperava por um homem, seu grande amor do Ensino Médio. Acidentalmente tiveram um filho e apenas ele teve a oportunidade de fazer uma faculdade. Acabou-se que, por fim, o marido encontrava-se cada vez mais apaixonado. Não por ela, pelo filho ou até pelo próprio sentimento de paixão, mas pelo seu trabalho. Obsessivamente, dava aulas de Sociologia na rede pública. Tentava por tudo mudar o quadro educacional o qual fora inserido na adolescência e então começou a deixar de lado, até que inconscientemente, a família.
Antes de pedir ao garçom outra caipirinha, verificou o meio de suas pernas para ver se sua calcinha aparecia, já que estava de saia, e logo cruzou as pernas. Após anotar o seu pedido, o trabalhador daquele restaurante direcionou-se à cozinha. Ao abrir a porta, um cheiro de fritura pairou no ar. Não, não era algo qualquer. Era cheiro de cebola. Cebola refogada. Levemente queimada, decerto. Instantaneamente, o sistema nervoso da mulher estimulou a produção de saliva pelas suas glândulas salivares. Os odores e os ruídos habituais em um bar se acumulavam à volta da mulher como numa espécie de despedida. Não era pra menos: em momentos, estava por se sentar à sua frente o suado e aflito futuro ex-marido.
Qualquer sensação de prazer com os aromas da cozinha foram breves e rapidamente se esvaíram. Afinal, haviam marcado de se encontrarem. Mas o professor não fazia ideia do que lhe era esperado: o divórcio. Pela expressão facial da mulher, experimentou uma vaga sensação de alarme, de forma silenciosa. Antes mesmo que o som das palavras lhe fossem captadas pelos seus ouvidos, sua mente já registrava as possibilidades de assunto da conversa. Calculou ser quase nula a probabilidade de que o papo seria tratado de maneira informal. Pelo visto, a coisa era séria. A partir do primeiro instante que a mulher começou a proferir o seu discurso, o professor se viu condenado a passar muitas noites em claro, divagando, devaneando, com uma sensação de amargura de si mesmo por ter deixado moça tão pura e tão pouco materialista ficar totalmente insatisfeita com o relacionamento, que, imperceptivelmente, degringolou-se.
Com o fim da conversa, houve o estranho consentimento da separação. Sem súplicas, o professor pôs-se a caminhar para fora do bar. Desgostoso consigo mesmo, não podia deixar barato o que deixara acontecer. Julgou merecer uma punição. E, não bastasse a turbulência de pensamentos auto-degradantes, resolveu castigar a seu corpo. Um uísque barato foi comprado em um boteco de aparência asquerosa. A partir dali, a bebida começou a articular pilhérias no intelecto do professor. O que poderia ser uma noite de quarta-feira, como qualquer outra, começou a possuir grande potencial em se tornar fatídica.
A embriaguez, de perpétua intangibilidade, dominava e corroía as entranhas do professor. Não havia raiva nem ódio, apenas frustração, que a partir de um certo momento deixou de ser unicamente pela desunião conjugal. Uma fraca e impotente sensação de lamento por ter ingerido um volume grande de bebida destilada também passou a fazer parte dos conflitos internos do professor. Evidentemente, a vulgar dor de cabeça e as intensas ânsias de vômito atrapalhavam ao professor a fazer uma boa direção ao volante de seu carro.
O vento, com um som semelhante ao silvo de
locomotivas, envolvia o silêncio da sombria madrugada, que - com insônia - esperava ansiosa e impacientemente por uma nova alvorada. Mal conseguindo enxergar as
esquinas que fazia curva com o carro, o professor endireitou-se e
reclinou-se em seu assento. Seus olhos, com os vasos sanguíneos saltitando, se espremiam involuntariamente para tentar avistar o que estava em sua frente. No pequeno espaço de tempo que conseguiu ampliar o
seu campo de visão, assustou-se com as luzes de uma viatura parada ao
canto da avenida. Mesmo seguindo o curso perfeito da rua, seu primeiro
reflexo foi girar o volante e, consequentemente, o seu carro, que em alta velocidade chocou-se
com um outro que estava estacionado. O previsível, então, finalmente aconteceu.
O
policial da viatura, mesmo sendo um samaritano nato, fazia a patrulha
com inquietude peculiar e incomum. Aflito, olhava constantemente o
relógio. O dia havia sido cinza, com clima cinza. Pelo visto, sua alma também estava
cinza. Ao olhar um carro passar em sua frente de forma desgovernada e bater
num carro mais à frente, se viu sem escolhas e foi ao
desastrado motorista. Viu acordar atordoado o professor, que se
desnorteou em uma intensa vertigem. Viu, pelo vidro, o policial se
aproximar do carro. Resolveu abrir a porta do carro. Quando o fez, o
policial já estava próximo ao carro, pronto para tirar satisfações com o
sujeito. Contudo, tal ação foi interrompida pela expulsão repentina e violenta
de uma grande quantidade de líquido amarelado do professor. O vômito, asqueroso,
impregnou o odor do coturno do indivíduo fardado, que ali estendia-se de
pé. Bravo, enraivecendo-se com a situação cada vez mais, o policial
começa a soltar fumaça pelo orifício auricular. Sua face vermelheceu, estabilizando-se
numa cor escarlate.
Em um movimento nada sutil, levantou
a cabeça e o tronco do sociólogo e o tirou do automóvel completamente
amassado, quase destruído. Com a situação sob controle, o policial
rapidamente juntou os braços do professor para trás, num movimento
específico para quando algema algum infrator. Entretanto, o porvir lhe proveu o inesperado. As algemas não se encontravam no bolso do policial e
muito menos em seu cinto. Teria de levar o infrator à viatura para o
algemar. Empurrou o professor de forma rude, mas cuidadosa, pois não gostaria que houvesse outra sessão de regurgitação.
Como o professor estava mal ainda, aturdido, o policial nem se deu ao
trabalho de fiscalizá-lo e o deixou enconstado no capô da viatura. Logo
entrou no carro e começou a procurar pelas algemas metálicas, conquanto
não estava no banco do carona nem no de trás. Enquanto isso, em um breve
momento o qual a lucidez voltou ao professor e percorreu suas
entranhas, o forte calor do capô do Gol do policial o fez levantar-se
bruscamente. Obviamente o policial se assustou de tão repentino que foi o
movimento. De repente, não estava mais de quatro, fuçando suas coisas,
procurando pelas algemas e sim realocando o infrator ao seu devido lugar
de espera.
Na curta caminhada de volta ao carro, se
lembrou de ter deixado no portaluvas. Após ter a satisfação de alívio ao
pegar as algemas dentro do portaluvas, concisamente se encaminhou ao
infrator e logo imobilizou com as algemas as mãos do professor. Até este
momento, apenas respingos, restos e pequenas cusparadas ocupavam a boca
do professor. De repente, começou a resmungar e o policial,
pacientemente, tentou entender os ruídos agudos que proferia o
professor. Depois de certo tempo, o professor conseguiu unir dois ou
três neurônios e os fazerem trabalhar em conjunto. Reuniu em sua mente a
informação que gostaria de proferir e o fez:
- Muito bom. Ótimo trabalho o seu. Me admiro de não ter me pedido por propina.
-
Não sou corrupto - respondeu seca e veementemente o policial - Jamais o
faria. Cumpro minhas funções como policial, assim como você deve ter em
seu emprego. Gosto disso, sinto como se fosse meu dever vigiar e punir
quem infringe a lei. Semestre passado comecei a faculdade de direito.
Dando continuidade a conversa, de forma admirada o professor falou:
- Bem, parabéns, é notável que hoje em dia existam profissionais no ramo policial como você.
- Sim, claro, obrigado - respondeu o guarda confuso, por pensar estar lidando com um moribundo qualquer, bêbado ao volante.
E então, num súbito momento de auto-avaliação, o policial averiguou mental e rapidamente quem era. Sua pequena crise existencialista lhe abriu uma grande gama de objetivos e um clarão de ideias.
- Não vou mais te prender.
- Oi?!
- Não será mais preso.
- Ai meu pai...
- Decidi que estou destinado a coisas maiores - começou a tagarelar o policial -, não devo perder meu tempo prendendo motoristas embriagados. Eu conheço o dono do carro que bateu. Espere, que eu te passo o telefone dele.
- Não será mais preso.
- Ai meu pai...
- Decidi que estou destinado a coisas maiores - começou a tagarelar o policial -, não devo perder meu tempo prendendo motoristas embriagados. Eu conheço o dono do carro que bateu. Espere, que eu te passo o telefone dele.
- Por que não?
- Por que não o quê?
- Por que não irá me prender?
- Já lhe disse...
- Isso não é motivo! Eu infringi a lei! Ora bolas, só me faltava essa...
- Por que não o quê?
- Por que não irá me prender?
- Já lhe disse...
- Isso não é motivo! Eu infringi a lei! Ora bolas, só me faltava essa...
- Você não está feliz? Não irá para a cadeia! Olhe bem, já fui lá uma vez e a barra é bem pesada, viu...
- Seria uma grande hipocrisia dizer que não me importo de passar algum tempo
lá, já que seria um grande desperdício. Mas entenda, sou professor de
sociologia na rede pública e sou bem franco com meus alunos. O que vão
lhes dizer sobre hoje? Que infringi a lei, dirigindo embriagado, batendo
num carro, insultando verbalmente o senhor, vomitando em seus pés e
sendo algemado e ainda saindo impune desta situação? Nananinanão, o
senhor vai é me prender! Preciso dar o exemplo aos meus alunos.
- Sei lá, minta para eles, abra uma exceção... - disse o policial, que ficou impressionado pela clareza com que o professor expôs as suas ideias. Havia o mínimo sinal de embriaguez em sua voz e suas frases estavam todas coesas.
- Com todo respeito, mas o senhor tem problemas de audição?
- Como?
- Puta que pariu, pelo visto, tem mesmo... - murmurou para si mesmo - Problemas auditivos! Surdez! Eu disse que sou professor de sociologia e a ética é um dos assuntos que mais falo dentro da sala de aula! Seria uma tremenda incoerência mentir a eles ou então sendo solto pelo senhor!
- Mas você não entende.
- Me explique o que não entendo, faz o favor.
Os pequenos globos do professor quase saltavam de sua órbita ocular. Brilhavam de forma semelhante ao de um dependente químico, quando há dias não usufrui de sua droga.
- É o seguinte: eu não sou qualquer um não, ô cara. Sou esclarecido, leio bastante. Meu processo de reflexão sobre segurança pública é bastante enriquecido. Mas um policial qualquer não tem um papel tão atuante assim em nossa sociedade. Veja bem, estou conversando com um professor, bêbado, que bateu o carro, numa madrugada de sexta-feira! Sem querer desmerecer o senhor e depreciar os profissionais da segurança, mas creio que tenho vocação à coisas maiores. Creio estar perdendo o meu tempo, seja aqui com o senhor como também no quartel de polícia. Você, professor, passou pela faculdade, teve aula com vários intelectuais de sua área, sabe que não vivemos numa sociedade democrática. E como podemos falar em democracia, se hoje temos 550 mil policiais no Brasil, 45 mil, só no Rio? Numa sociedade igualitária não haveria tanta violência e, consequentemente, praticamente se extinguiriam os policiais. Novamente, sem desmerecer o senhor, mas este problema é muito maior que o me apresentou. Agora, se me dá licença...
Decidido, o policial resolveu abandonar o professor. Ele que se virasse para encontrar um meio de ir para casa, ou até de ir ao hospital. Em seu andar determinado ao carro, surpreendeu-se pelo professor não ter tentado impedi-lo. Continuava imóvel, quase catatônico. Embora preocupado, o policial bateu a porta do carro de forma grosseira e pôs-se a colocar a chave na ignição.
Enquanto estressava-se - outra vez no dia, desta com a tentativa frustrada de ligar o carro, que engasgava repetidamente - o professor subitamente levantou-se e de forma sorrateira e com passos curtos, foi chegando perto da viatura. Quando o policial se deu conta de onde estava o professor, não teve tempo nem de reagir: só viu a mão do professor vindo em direção ao seu rosto e lhe dar um barulhento tapa.
- Vai embora o caralho! Porra! Tô falando contigo e tu sai assim? - gritou o professor, nitidamente alterado.
O policial estourou. Mesmo não verbalizando nada, abriu a porta do carro e em um movimento único e bruto afastou o professor ao máximo do carro com um soco. Voltou ao carro e quando enfim conseguiu ligá-lo, arrancou com o carro. Ao olhar no retrovisor, riu do professor, que, tonteando, fazia sua voz ecoar por toda a rua:
- Policial filho da puta! Aonde já se viu? Não quer me prender! Vejam só! Volte aqui se é homem mesmo! Hã? Viu, foi o que pensei! Boiola, medroso! Vai voltar não? Pois é, ficou com medo, né?! Pois é, era pra eu tá preso! Pois é, sou da pá virada, mané! Não mexe comigo não, hein...
E, dando gostosas gargalhados, o policial comentou a si mesmo:
- E quer dar exemplo aos alunos... Tá certo.
- Com todo respeito, mas o senhor tem problemas de audição?
- Como?
- Puta que pariu, pelo visto, tem mesmo... - murmurou para si mesmo - Problemas auditivos! Surdez! Eu disse que sou professor de sociologia e a ética é um dos assuntos que mais falo dentro da sala de aula! Seria uma tremenda incoerência mentir a eles ou então sendo solto pelo senhor!
- Mas você não entende.
- Me explique o que não entendo, faz o favor.
Os pequenos globos do professor quase saltavam de sua órbita ocular. Brilhavam de forma semelhante ao de um dependente químico, quando há dias não usufrui de sua droga.
- É o seguinte: eu não sou qualquer um não, ô cara. Sou esclarecido, leio bastante. Meu processo de reflexão sobre segurança pública é bastante enriquecido. Mas um policial qualquer não tem um papel tão atuante assim em nossa sociedade. Veja bem, estou conversando com um professor, bêbado, que bateu o carro, numa madrugada de sexta-feira! Sem querer desmerecer o senhor e depreciar os profissionais da segurança, mas creio que tenho vocação à coisas maiores. Creio estar perdendo o meu tempo, seja aqui com o senhor como também no quartel de polícia. Você, professor, passou pela faculdade, teve aula com vários intelectuais de sua área, sabe que não vivemos numa sociedade democrática. E como podemos falar em democracia, se hoje temos 550 mil policiais no Brasil, 45 mil, só no Rio? Numa sociedade igualitária não haveria tanta violência e, consequentemente, praticamente se extinguiriam os policiais. Novamente, sem desmerecer o senhor, mas este problema é muito maior que o me apresentou. Agora, se me dá licença...
Decidido, o policial resolveu abandonar o professor. Ele que se virasse para encontrar um meio de ir para casa, ou até de ir ao hospital. Em seu andar determinado ao carro, surpreendeu-se pelo professor não ter tentado impedi-lo. Continuava imóvel, quase catatônico. Embora preocupado, o policial bateu a porta do carro de forma grosseira e pôs-se a colocar a chave na ignição.
Enquanto estressava-se - outra vez no dia, desta com a tentativa frustrada de ligar o carro, que engasgava repetidamente - o professor subitamente levantou-se e de forma sorrateira e com passos curtos, foi chegando perto da viatura. Quando o policial se deu conta de onde estava o professor, não teve tempo nem de reagir: só viu a mão do professor vindo em direção ao seu rosto e lhe dar um barulhento tapa.
- Vai embora o caralho! Porra! Tô falando contigo e tu sai assim? - gritou o professor, nitidamente alterado.
O policial estourou. Mesmo não verbalizando nada, abriu a porta do carro e em um movimento único e bruto afastou o professor ao máximo do carro com um soco. Voltou ao carro e quando enfim conseguiu ligá-lo, arrancou com o carro. Ao olhar no retrovisor, riu do professor, que, tonteando, fazia sua voz ecoar por toda a rua:
- Policial filho da puta! Aonde já se viu? Não quer me prender! Vejam só! Volte aqui se é homem mesmo! Hã? Viu, foi o que pensei! Boiola, medroso! Vai voltar não? Pois é, ficou com medo, né?! Pois é, era pra eu tá preso! Pois é, sou da pá virada, mané! Não mexe comigo não, hein...
E, dando gostosas gargalhados, o policial comentou a si mesmo:
- E quer dar exemplo aos alunos... Tá certo.
Germinal!
Gigi Damiani
Pelo calvário da vida novos Cristos sobem a montanha, dominados por uma mística esperança, deixando partes de sua carne nos espinheiros que bloqueiam o caminho; morrem sob o peso da cruz.
Mas as piedosas virgens de Jerusalém não acorrem para derramar lágrimas por esses pioneiros da justiça, como o faziam para os rabis da Galileia, e quando, exaustos, caem sob a cruz, nenhum Cireneu se dá o trabalho de ajudá-los.
O povo os olha silencioso, imbecilizado pela secular escravidão, sem chegar a compreendê-los. As pessoas cultas os chamam de maníacos, a multidão de mercenários acusa-os de malfeitores. E eles sorriem para os carrascos e a tortura, para os caluniadores e as acusações; sorriem e caminham, caminham...
"Para o nada!", gritam os novos doutores de Salamanca.
"Para o futuro", respondem os mártires da liberdade.
E caminham...
Eis que chegaram ao cume.
Esperam ver nascer o sol dos novos tempos; inútil esperança...
Sob o céu cinzento, se adensa a tempestade, o horizonte está escuro...
Olham ao seu redor... buscando...
Mas os poucos que se disseram seus companheiros, que na luta juraram segui-los, já estão longe, derrotados pelas torturas, mortos pelo sofrimento, dispersos pela tormenta... E agora?!
O carrasco, porém, está próximo: os fariseus exultantes de alegria estão lá perto... E agora?!
Agora o mártir se transforma em rebelde, desvencilha-se da cruz, levanta a cabeça e fixa orgulhoso os carrascos... e...
E investe sozinho contra todos.
Lá, onde esperaram encontrar conforto, descanso, foi elevado o patíbulo.
Assustados, os carrascos por um instante temeram que a massa tomasse o partido desses audaciosos rebeldes, mas a massa não se manifestou, embrutecida pelo hábito de servir. E depois Judas descera no meio da multidão e, debaixo das colunas do Pretório, gritara: "Calma, calma, não se deixem entusiasmar pelo ato desses românticos..."
Mas os românticos sorriram, na intuição de novos tempos, e quando a estrela-d'alva surgiu, prenunciando o alvorecer, com um sorriso ofereceram a cabeça ao carrasco.
GERMINAL!
Quem lançou este fatídico grito à multidão, quem lhe deu tanta força sonora a ponto de fazê-lo ecoar por todo o mundo?
Foi concebido por um homem, inspirado por um partido? Não!
É precisamente ele a fórmula da hora de sangue iminente; é a palavra que encerra todo o conceito a filosofia inovadora; é o grito da esperança, o hino da liberdade, o grito da batalha.
Germinal!
Por que os tiranos empalidecem, por que as plebes levantam a cabeça?... Todavia, é apenas um grito!
Mas no ar, nas coisas, em tudo, passa o frêmito das horas que correm e, irrigada pelo sangue rebelde, a flor da justiça já está germinando.
Podes gritar o quanto quiseres, Iscariotes:
"Calma, calma: não deem atenção aos românticos..."
A multidão já não te escuta, levanta-se e presta ouvidos à exclamação suprema do homem que morre pela Ideia:
GERMINAL!
Pelo calvário da vida novos Cristos sobem a montanha, dominados por uma mística esperança, deixando partes de sua carne nos espinheiros que bloqueiam o caminho; morrem sob o peso da cruz.
Mas as piedosas virgens de Jerusalém não acorrem para derramar lágrimas por esses pioneiros da justiça, como o faziam para os rabis da Galileia, e quando, exaustos, caem sob a cruz, nenhum Cireneu se dá o trabalho de ajudá-los.
O povo os olha silencioso, imbecilizado pela secular escravidão, sem chegar a compreendê-los. As pessoas cultas os chamam de maníacos, a multidão de mercenários acusa-os de malfeitores. E eles sorriem para os carrascos e a tortura, para os caluniadores e as acusações; sorriem e caminham, caminham...
"Para o nada!", gritam os novos doutores de Salamanca.
"Para o futuro", respondem os mártires da liberdade.
E caminham...
Eis que chegaram ao cume.
Esperam ver nascer o sol dos novos tempos; inútil esperança...
Sob o céu cinzento, se adensa a tempestade, o horizonte está escuro...
Olham ao seu redor... buscando...
Mas os poucos que se disseram seus companheiros, que na luta juraram segui-los, já estão longe, derrotados pelas torturas, mortos pelo sofrimento, dispersos pela tormenta... E agora?!
O carrasco, porém, está próximo: os fariseus exultantes de alegria estão lá perto... E agora?!
Agora o mártir se transforma em rebelde, desvencilha-se da cruz, levanta a cabeça e fixa orgulhoso os carrascos... e...
E investe sozinho contra todos.
Lá, onde esperaram encontrar conforto, descanso, foi elevado o patíbulo.
Assustados, os carrascos por um instante temeram que a massa tomasse o partido desses audaciosos rebeldes, mas a massa não se manifestou, embrutecida pelo hábito de servir. E depois Judas descera no meio da multidão e, debaixo das colunas do Pretório, gritara: "Calma, calma, não se deixem entusiasmar pelo ato desses românticos..."
Mas os românticos sorriram, na intuição de novos tempos, e quando a estrela-d'alva surgiu, prenunciando o alvorecer, com um sorriso ofereceram a cabeça ao carrasco.
GERMINAL!
Quem lançou este fatídico grito à multidão, quem lhe deu tanta força sonora a ponto de fazê-lo ecoar por todo o mundo?
Foi concebido por um homem, inspirado por um partido? Não!
É precisamente ele a fórmula da hora de sangue iminente; é a palavra que encerra todo o conceito a filosofia inovadora; é o grito da esperança, o hino da liberdade, o grito da batalha.
Germinal!
Por que os tiranos empalidecem, por que as plebes levantam a cabeça?... Todavia, é apenas um grito!
Mas no ar, nas coisas, em tudo, passa o frêmito das horas que correm e, irrigada pelo sangue rebelde, a flor da justiça já está germinando.
Podes gritar o quanto quiseres, Iscariotes:
"Calma, calma: não deem atenção aos românticos..."
A multidão já não te escuta, levanta-se e presta ouvidos à exclamação suprema do homem que morre pela Ideia:
GERMINAL!
terça-feira, 10 de julho de 2012
A autoridade
Eduardo Galeano
Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na proa das canoas e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam. Os homens montavam as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam as peles de abrigo.
Assim era a vida entre os índios onas e os yaganes, na Terra do Fogo, até que um dia os homens mataram todas as mulheres e puseram máscaras que as mulheres tinham inventado para aterrorizá-los.
Somente as meninas recém-nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Jorge Luiz Borges
"Encontrei quase tudo nos livros. Não sei se sou um bom ou medíocre escritor, porém sei que sou um bom leitor. Um livro é uma coisa entre as demais. Contudo, quando alguém abre algum livro e o lê com devoção e generosidade então ressuscita Emerson, que diz que 'Uma biblioteca é como um gabinete mágico que está cheio de espíritos que dormem nos livros'"
terça-feira, 24 de abril de 2012
Por quê?
Por que é necessário à minha vida aprender Física? Por que o meu sucesso futuro depende das aulas entediantes de Biologia? Por que sou forçado a acordar todos os dias às 6h quando poderia render mais se levantasse às 10h? Por que não posso apenas me ater à arte e viver dela? Por que o dinheiro há de reinar? Por que é adotado um sistema baseado no dinheiro? Por que uma pessoa é considerada melhor que a outra pelo que consome? Por que não vemos a valorização da arte e da liberdade de expressão? Por que o dinheiro é a chave para a sobrevivência? Por que o sistema me impede que a minha vida seja custeada por livros, músicas e filmes? Por que tenho que pagar por tudo? Por que o capital é necessário? Por que não posso ir à França sem um tostão? Por que me falaram que o público é de todos, quando não é? Por que me impuseram a falsa verdade de que posso ir aonde quiser, quando quiser, se quiser? Por que a minha vida há de ser semelhante à dos outros, tendo que passar pela mesma coisa? Por que existe o vestibular? Por que não se faz que nem na Argentina, em que não precisa-se pagar para entrar, nem fazer uma prova, apenas se manter no curso (que é de alto nível, diga-se de passagem)? Por que tenho que redigir uma redação extremamente mecanizada, para ter uma nota julgada por uma banca de professores que já leram e revisaram dezenas, quiçá centenas de textos no dia e que estão exaustos de tanta correção, para passar no vestibular? Por que não nos é requisitado inovação e brilhantismo? Por que transformaram toda a nossa vida num rígido protocolo? Por que a minha vida não é de minha posse? Por que o dito Estado manipula a situação de todos? Por que tenho de me preocupar com a função química do paracetamol se quero ser escritor? Por que falar de geopolítica se quero estudar Psicologia e entender o ser humano? Por que tudo nos lhe é imposto sem nem nos perguntarmos o que desejamos ou não? Por que essa inércia toda? Por que acatamos tudo de maneira tão submissa? Por que consentimos com isso? Por que tanta nojenta incoerência passa por despercebida por nós e tudo continua na mesma? Por que muitos estão aí parados, querendo ser engenheiros? Por que querem ser só mais um? Por que não tentam mudar o país, o sistema? Por que se escondem por detrás de tanta covardia, tendo entendido minimamente como funciona o sistema? Por que esquece das suas aulas de História? Por que os cursos de humanas são menos valorizadas que os de exatas? Por que não formamos muitos pensadores e apenas verdadeiros escravos cegos fazedores? Por que mais operários e menos articuladores? Por que um prédio é mais importante que um livro do Julio Cortázar? Por que leu o nome desse genial autor e não o reconheceu? Por que nosso ambiente de vida nos causa horror? Por que encontramo-nos petrificados, de forma irreparável? Por que temos de viajar para inventar o futuro espacial e idealizar outras versões de novos eus? Por que a música de verdade não é mais o mainstream? Por que diabos nos afastaram das improvisações guardadas em um disco, do timbre de uma voz, dos produtos de uma hora feliz? Por que há a vulgarização da música? Por que o bom é ruim? Por que alucinações, relfexões e divagações feitas sob um céu limpo, sem prédios, cheio de estrelas não são mais valorizadas? Por que o que é de belo na vida não é o mais importante? Por que a grande onda que carrega nós, nadadores, corre sobre o oculto dorso das areias? Por que tantas indagações atingem um grupo tão ínfimo de poucas pessoas? Por que nosso sofrimento é este regozijo contínuo de querer vencer o outro? Por que não nos fixamos em ser o melhor de nós mesmos, e não o melhor do outro? Por que é chato e entediante ler um escritor tagarela e azucrinado por suas meditações baseadas em fantasias e devaneios? Por que gênios ainda são inócuos perante o sistema? Por que usamos tantos eufemismos? Por que a verdade está sempre tão distante? Por que o superficial está tão contíguo a nós? Por que de forma não mais tão espantosa, assuntos supérfluos tomam conta de não só um, mas vários, mares de gente? Por que nos tornamos cada vez mais pessoas robotizadas? Por que não sentimos vergonha de um passado, sim indelével, e não fazemos de nada para mudar o futuro? Por que os pensadores sentem-se deslocados, fora do trato social? Por que não somos todos um conjunto harmônico, só de irmãos, cuidando uns dos outros? Por que tacamos fogo numa pessoa por ela ser um índio? Por que educamos crianças ineptas ao convívio em sociedade? Por que tenho credibilidade com você? Por que conclui de forma árdua, me aguentar e ler esse texto inteiro? Por que não parou na metade, no meio de tantas perguntas que certamente não serão nocivas aos planos dos deuses da política e do dinheiro? Por que me sinto covarde e impotente? Por que não me questionou, antes de começar, o motivo de ler esse texto? Por que a esse ponto considera estar perdendo seu tempo com minhas palavras, além de reputar-me como ingênuo e sem a malícia necessária para um revolucionário? Por que diabos te sequestrei para conhecer um pouco mais de minha embriaguez inocente? E aí, já se perguntou porquê?
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Pausa para reflexão
RODOLFO ROGER
Já reparou que algumas religiões funcionam exatamente como drogas, em todos os seus aspectos?
Primeiramente, elas, essas religiões, aparecem como uma solução para o
seu problema. Você vai a um templo religioso, normalmente convidado por
um amigo ou conhecido, e lá você sente uma sensação de paz, alegria e
prazer jamais percebida. Frequentar tal lugar passa a ser um hábito.
Segundo: depois de um tempo, você é convencido de que se você doar quantias em dinheiro, normalmente 10% de sua renda, uma entidade superior, nesse caso, Deus, lhe dará em dobro. Com o tempo, isso passa a ser um hábito, que posteriormente torna-se uma obrigação, podendo a pessoa ser proibida de adentrar certos templos caso não paguem o que devem. Existem templos que emitem boletos para as pessoas pagarem, como o do Pastor RR Soares.
Certo dia, passando pelos canais da minha tv, vi um anúncio da igreja do Apóstolo Valdemiro pedindo para as pessoas depositarem a quantia de R$ 156,00 na conta da igreja. Disseram que, em caso de dúvidas, os interessados deveriam ligar para o número (11) 34883050.
Vem cá, por que não pedem para os frequentadores levarem alimentos, brinquedos ou roupas para serem doados para pessoas necessitadas? Segundo a história, Jesus nunca pediu dinheiro! Ou seja, assim como os usuários de droga, que, em alguns casos, encerram-se em grupos onde o único a obter lucro financeiro é o "chefe da boca", os frequentadores de certas religiões também se fecham em grupos onde o único a obter lucros financeiros (se não o único, é certamente o que mais obtêm) é o dono da instituição.
Assim como os usuários de drogas, muitos fiéis são vistos apenas como consumidores. Assim como os "chefes da boca", os pastores donos de certas instituições religiosas moram em casas luxuosas.
Assim como o uso excessivo e contínuo de entorpecentes, certas religiões limitam o raciocínio.
Assim como a droga, que lhe afasta das pessoas e por conseguinte, de Deus, certas religiões fazem o mesmo ao cobrarem dinheiro de seus seguidores, por julgarem "pecadores" os que não fazem parte ou seguem seus preceitos, ou simplesmente discordam dele.
Religião vem do latim, e significa, à grosso modo, religar-se, nesse caso, a Deus.
E eu não consigo entender como alguém pode se julgar próximo a Deus separando-se de outra pessoa, sem praticar as coisa mais simples e difíceis, que são a caridade e o respeito. Orar, dizer palavras bonitas, passar horas em cânticos reticentes NÃO SIGNIFICA NADA se você não pratica o bem. É como drogar-se para esquecer um problema! De nada adianta se você agir, não estudar, não questionar.
Não concordo com esse modelo mercadológico em que a religião se transformou.
Vida a dois
CARLOS EDUARDO NOVAES
Juro que nunca entendi bem este casamento do Capitalismo com a Democracia. É claro que ambos precisariam encontrar um parceiro diante da impossibilidade de tocarem suas vidas, sozinhos. O Capitalismo é um sistema econômico e depende de um regime político que o mantenha de pé e lhe permita ganhar dinheiro. Já a Democracia é apenas uma boa moça que necessita de alguém que a sustente e pague suas despesas.
Digamos que o Capitalismo entrou em um desses sites de relacionamento de casais e deu de cara com a Democracia.
- É com essa que eu vou! - berrou o Capitalismo.
Casaram-se e, como acontece nos casamentos, os primeiros anos foram de juras de amor eterno. Com o tempo, porém, as crises começaram a pipocarr O Capitalismo sempre foi um tipo instável, temperamental, sem princípios sólidos, que gosta de caminhar sobre suas próprias regras. A democracia por momento chegou a pensar que ele só se casara com ela para desfrutar do seu ideal de igualdade.
Tiveram dois filhos, a Bolsa e o Mercado. A Bolsa saiu ao pai, um temperamento ciclotímico e um comportamento cheio de altos e baixos que provocou uma crise monumental em 1929 e quase levou o casal à sepração. O Mercado, filho querido, cresceu e passou a tomar os negócios do pai. Ganhou fama, e sempre que surgia um problema, alguém gritava: "Deixa que o Mercado resolve!". Às vezes, o Mercado metia os pés pelas mãos, o pai entrava em crise e logo chamavam a mãezona.
Nos primeiros anos do século passado, um casal gay - Comunismo e Totalitarismo - instalou-se na casa ao lado, separada por um muro, e passou a infernizá-los. Barbudos, mal encarados, não havia um dia que não aparecessem na janela para xingar os vizinhos. FOram mais de 70 anos de difícil convivência, uma guerra surda (chegou a ser fria). Até que no final dos anos 80 o muro veio abaixo. Sua queda expôs a indigência da casa desmascarando as bravatas do casal gay (que se mudou para uma casinha no interior de Cuba). O Capitalismo soltou foguetes.
Não demorou muito, em 1997 - menos de 10 anos após a queda do muro - Bill Clinton, o afilhado preferido do Capitalismo, alertou o padrinho para não ir com tanta sede ao pote.
- Eu quero é mais! - bradou o pai do Mercado, se sentindo dono do mundo.
Não deu outra: jogando solto, sem ter que dar satisfações a ninguém, o Capitalismo perdeu a noção de limite a acabou mergulhando em uma crise existencial que parece não ter fim. A Democracia achou que deveria alertá-lo para o descontrole nas finanças do casal.
- Você não se mete - disse ele - Você não entende nada disso!
Hoje ele respira por aparelhos. Uma junta médica reunida em Davos para diagnosticar seus males admitiu que para recuperar a saúde (e o prestígio) o Capitalismo teria que promover mudanças profundas no seu comportamento. Sua mulher tenta ajudá-lo:
- Você precisa ser mais humano, mais solidário, mais preocupado com o meio ambiente. Deixar de pensar tanto em dinheiro, ser menos ganancioso...
- Como? - reagiu ele, certo de que não vai morrer - Se eu mudar em tudo que estão me pedido vou deixar de ser o Capitalismo! É isso que você quer? É isso?
A Democracia não respondeu. Virou-lhe as costas e saiu resmungando:
- Eu devia ter me casado com o Socialismo!
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Música, poesia e imagem
A música é melhor que a poesia, por unir som e poesia. Logo, uma música com poesia é melhor do que uma que é só música sem grandes letras, que por sua vez é pior do que uma poesia. Se formos pensar um grau à frente, têm-se o aspecto da imagem. Unindo poesia e imagem, cria-se o quadrinho. Imaginando mais adiante ainda, engendremos a união de tudo: imagem, música e poesia: surge o cinema. Contudo, o cinema é de difícil acesso. Não só para criar um filme (fazer uma música é mais fácil. Um quadrinho então, nem se fala), mas também você necessita de um VHS, agora DVD, ou algo semelhante. A música não, um simples CDPlayer, agora MP3, e pronto! O quadrinho, mais ainda: é só abrir o livro.
Ter ciência
A partir do momento de meus primeiros suspiros estou num gradual processo de "sobriamento" de ideias e atitudes. Desde moleque, assustava coleguinhas com frases ofensivas e aterrorizava professoras com perguntas de ébria malícia. Em certa ocasião, em um dia de aula, a tia tinha liberado os alunos para ficarem conversando antes do sinal do intervalo tocar. Era venerado pro futebol e não perdia a chance de fazer a pelota rolar. Logo, estava ansioso para o início do recreio. Para fazer o tempo passar mais depressa, procurei alguém pra bater um papo. No meio de uma conversa oriunda de um assunto desconhecido, perguntei a idade do meu colega. Disse que tinha x anos (o mesmo que eu, na época). Perguntei em que mês havia nascido e respondeu que sua mãe o tinha parido em junho. Empolgado, exclamei que viveria mais do que o sujeito, porque o dia em que nasci é em julho. E, como toda criança tem o costume de tirar sarro da outra, repiti seguidas vezes que ele morreria antes de mim. Conclusão lógica: lágrimas e "Tiaaaaaaaa!". No canto, fui chamado para uma conversinha. Me indagou o motivo de falar que o garoto iria morrer. Esmiucei a situação e falei que não era bem assim. Que eu apenas havia dito que eu viveria um mês mais do que ele. Sucedeu-se um esporro recheado de eufemismos de que não me recordo direito, falando que não era a data de nascimento que marcava a de falecimento também. Revoltado, tentei explicar que pra mim era assim e pronto! Consequência: sem recreio e sem bola. Um absurdo! Jamais passaria pela minha ambiciosa - mas presunçosa - mente tal suposição esdrúxula de que meus preciosos minutos chutando a redonda e criando confusões para os inspetores, seriam trocados por momentos tão vagarosos e maçantes como aqueles na sala da tia.
Não era idiota. A começar do dia seguinte, comecei a conter minha aflição, pois já sabia que poderia qualquer ação exaltada poderia custar os mais voluptuosos instantes que um dia comum de semana poderia me oferecer.
Em breve, mais capítulos.
quinta-feira, 22 de março de 2012
A hora do silêncio
Para as ruas era apenas mais um dia, rotineiro. O calor era
escaldante. O ar condicionado do carro estava quebrado. Abria-se as
janelas. Ecoava o voraz ruído proveniente de um fluxo acentuado de
automóveis, que tomava conta do ambiente e do humor das pessoas que ali
estavam. Ocasionalmente, uma leve brisa conseguia escapar para dentro do
carro e fazia dar-se sopros de esperança perante tamanha situação
agoniante.
O professor que dirigia o carro estava artomentado: não
encontrava vagas. Já havia rodado não só a Vieira Souto inteira, mas
também a Visconde de Pirajá. Enxergava a Prudente de Morais como última
saída para salvar a aflição. A economista
que estava no banco do carona insistiu em fazer a contagem do tempo, se
bem que o professor fazia pouco caso. Não era um simples cálculo em que
se olhasse no relógio de tempos em tempos, mas era como se fosse algo
que medisse a estupidez que foi ter saído para ir à praia
num domingo de carnaval, perto do meio-dia. A economista não perdia a
oportunidade de salientar que sua ideia era melhor: defendia o argumento
de ter acordado cedo, tomado um breve café da manhã e já ter saído de casa em
Laranjeiras, às 8h, pegar o 569 e sem delongas, descido na Visconde de
Pirajá, andado dezenas de passos e apreciado um bom dia de praia. Mas o
professor tinha de ter ao menos 10 horas de sono. Não gostava de
socializar e falar com muitas pessoas. Não gostava da ideia de andar de
ônibus (perigoso demais). Seu intestino só funcionava às 9h. Seu pênis
só ficava ereto de 11h a 15h e de 20h à 1h. Seu sobrenome era alemão:
Fresch Urah.
Além de sofrer com máximas exasperadas da
economista (algumas sem sentido, como "Pra que você quis vir de carro?
Você sabe que este é um bairro velho!"), o economista se deparava com um
trânsito caótico. A procura era incessante por um oásis num deserto em
que lagarto come cobra e o fogo ardente não tem data de validade. Os
óculos pretos mal ocultavam a imagem de vertigem dilatada pelo asfalto. O
daqui a pouco não chegava nunca. Parecia que o sinal estava vermelho há
mais de meia hora.
A mente do professor, de companhia
culta e deleitável, começava a desmoronar. A inação do carro
antagonizada com o ritmo eletrizante de todo o resto (buzinas, apitos,
chocalhadas vindas da parte de trás do carro, acompanhadas pelo choro do
bebê no banco de trás, calor e freneticidade nas palavras da mulher)
enlouquecia um cérebro ávido por acontecimentos relevantes e geniais.
Seu psicológico simulava a imagem de que estava farto da situação.
Olhava em volta e não achava nada que pudesse compreendê-lo. Nem mesmo
os malabaristas de sinal o deixava em paz. Estava atônito por estar
tendo que raciocinar de forma tão neurótica. A economista, começando a
se tornar ciente do estado do motorista parou e pensou. Refletiu por um
curto tempo. Percebeu que não só o clima estava afobado, mas ela também.
Pegou na mão do marido, a trouxe até a boca e deu um carinhoso beijo.
Se desculpou e clamou por compreensão. Revelou que em algumas situações
não media bem as palavras em relação à situação: se era condizente ou
não.
A cor do semáforo brincava de passar do vermelho
ao verde, deste ao amarelo e novamente ao vermelho. O engarrafamento
agora estava concretizado: uma van havia batido na traseira de um Gol,
interditando a pista inteira. A economista falava manso com o professor e
apaziguava a situação. Pegou o bebê no colo e lhe fez dengo. Pôs-se a
colocar no cdplayer uma música que acalmasse os ânimos. Escolheu um
álbum do Zeca Baleiro.
Com um drible sagaz, a
economista se livrou de qualquer problema. Não açoitava pensamentos
ruins e se enchia de otimismo. O professor começou a perguntá-la do
porquê de tal reação inicial, que mal em palavras conseguiu descrever.
Se rendeu aos braços do professor. Mesmo por um motivo relativamente
simples, a economista não gostava de fazer o marido se sentir mal. Ainda
mais quando o professor começava a cortejar a insanidade.
Em
meio ao vai e vém da conversa, nuvens passaram sobre os céus da bonita e
charmosa Ipanema, refrescando a temperatura, que até ali havia
permanecido constante. Funcionários da Prefeitura finalizavam a limpa do
estrago feito pela batida causadora de poucos inebriantes e longos
instantes. A fila de carros começava a andar. O bebê já dormia
profundamente de bruços no banco traseiro, com cara de anjo e as mãos
sobre o chocalho feito de caroços de feijão e 2 potes de Danoninho. O
disco já havia terminado e o casal estava feliz, pela primeira vez no
dia.
Após por em marcha lenta o seu antigo Opala, o
professor atordoou-se: havia uma vaga à esquerda. Logo em seguida de
passar de forma veloz e sedutora pela sua cabeça o pensamento de abandonar a Missão
Praia, o alívio imperava as entranhas do professor. Rapidamente estaciona o
carro na vaga. Atordoado, dá um beijo delicado, porém cheio de tesão na
economista. Para ambos agora, o foco era a folga.
Antes
de partirem para curtir momentos de descanso, o professor, ainda
inquieto, dirigiu-se ao pé do ouvido da economista. Disse que era o que
guiava sua vida e que sem ela não conseguiria viver. Contudo, algo ainda
lhe atormentava. A ideia de atribuir a prédios velhos um engarrafamento
lhe parecia insana. A economista explicou que Ipanema é um bairro que
foi fundado no final do século XIX e enorme quantidade de edifícios
foram engendrados no começo do século XX. Na época, não existiam muitos
carros, logo não arquitetava-se muito espaço direcionado à garagem.
Consequentemente, a partir dali, os futuros moradores tiveram que
procurar vagas na rua. Com o desenvolvimento urbano, aquela área começou
a não suportar o enorme fluxo de carros circulando, que começaram a
clamar por um local para deixar o carro.
De certa forma atordoada, o professor saiu do carro. Abriu a porta para a mulher e o bebê e os abraçou.
Respirou profundamente e puseram a marchar em direção à areia. O dia já
estava no final e muitos iam embora. Encontraram um lugar calmo, mais
isolado dos demais. Ali, não havia espaço para os mais diversos tipos de buzinas fuzilando e poluindo sonoramente o ar. Instalaram-se em cadeiras de praia e ficaram observando
o horizonte. A paz e a tranquilidade reinavam. Compartilharam não só o
barulho da quebra das ondas e o lindo e tricolor pôr do sol, mas também
algo singular, puro e raro: o silêncio.
sábado, 10 de março de 2012
O relógio
Ao longo dos séculos, os meios de disseminação e conservação do tempo sofreram grande evolução. Tal fato é marcado pelo aperfeiçoamento constante de certos dispositivos engenhosos e singulares. O relógio mudou o jeito de pensarmos, categorizou regiões em fusos horários e dividiu minutos e horas em milésimos de segundo. Sem falar na influência no norte tomado por nossa sociedade
Difícil imaginar como um mecanismo relativamente pequeno impactou a vida de incontáveis pessoas. Principalmente quando se trata de traduzir um fenômeno natural numa concepção artificial e intelectual. Este instrumento torna-se mais peculiar ainda por não virar apenas mais elaborado e preciso, com o passar do tempo. A democratização ao seu acesso o fez menor e mais barato.
Os avanços na miniaturização andam de mãos dadas com o desenrolar da história. Ao remontarmos à tempos medievais, vemos que o ritmo agrário apressado pela produtividade, ditava ordens. Portanto, era necessário medir períodos a fim de criar e produzir de maneira mais eficiente.
A premência de apertar a programação e sincronizar trabalho, transporte, devoção e lazer contribuíram para o rápido progresso na tecnologia deste famoso maquinismo. A máxima "Tempo é dinheiro", surgida em meio à 1ª Revolução Industrial é a tônica desta situação.
No entanto, nem sempre foi um objeto modesto que media dias e noites. Interessante é notarmos tais transformações. O que outrora era calculado pela areia (ampulheta), antes era avaliado através do sol e das estrelas.
Em suma, pudemos perceber a dimensão e a relevância de um símbolo para um corpo social tão acelerado e inovador como o nosso. Já sabemos que o Capitalismo impulsionou o desenvolvimento do relógio e o fracionamento do nosso tempo. Contudo, estamos à eminência da falência deste sistema. Por conseguinte, seria ousado demais visualizarmos no futuro um cotidiano menos afoito e mais tranquilo?
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Da lama a lama - 15 anos sem Chico Science
A lama tem um sentido especial para o mangue, é dela que se nutre sua
verde e frondosa vegetação, onde são construídas quilométricas galerias
pelas quais circulam os caranguejos. Com ela é forjado o cerco entre
rio e mar dando forma a ambientes assimétricos provedores de um fluxo
vital constantemente transformado e renovado assegurando a manutenção da
ordem em meio à dinâmica natural do caos.
O cenário liquefeito/heterogêneo ainda hoje não se permite
solidificar por toneladas de concreto, "insaneamento" básico e descaso,
ao passo que ininterrupto margeia um caminho resistente e sem silenciar
regenerando-se com propriedade hepática (cuja qual nem as mais avançadas
técnicas de cultivo e manejo da agricultura celeste poderiam
subsidiar), enquanto presencia o cataclisma urbanóide.
Indo um pouco mais adiante e sem querer rasgar muita seda, a metáfora
mangue, surgida há 21 anos quase completos, deu origem à cooperativa
cultural subversora de lógicas e práticas até então "invioláveis" ao
apropriar-se da ainda primitiva tecnologia digital, da ficção
científica, do futurismo, do centro, da periferia, da cidadania mundial,
da gréia e enfaticamente (mas não acima de tudo) da música.
Chico e sua ciência foram peças chave na emergência do Manguebeat.
Como mercador ambulante, passeou pelos tambores do maracatu, pelas rodas
de coco e ciranda, nas ruas do Bronx/Brooklyn, Rio Doce, Peixinhos,
Chão de Estrelas, Aurora até o Pina; chegou longe em pouco tempo e
carregou para onde foi Pernambuco e seus mestres: Josué de Castro, João
Cabral, Lia de Itamaracá, Lampião, Mestre Salu, Zumbi e tantos outros;
foi embora muito cedo também, mas seu passado, mesmo depois de 15 anos
de partida ainda se faz presente no consciente coletivo da Manguetown,
seja em um grafite de rua, no som das carroças de disco pirata ou na
conversa entre amigos, de toda maneira, a saudade para aqueles que o
conheceram fica, assim como a vontade de ter visto um show para os
demais.
A analogia entre a diversidade dos mangues e a cena que ajudou a
criar é pertinente ao momento, uma passagem do romance “Homens e
Caranguejos” vem a mente quando Josué de Castro narra o homem do mangue
em uma relação beirando a simbiose com o caranguejo, tais personagens se
complementam e reconfiguram o ambiente num ciclo de elementos
conectados entre si e com a lama, lugar final onde homens e caranguejos
se tornariam um só.
(...) "Os mangues do Recife são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita para o homem, com tudo para bem servi-lo, o mangue foi feito especialmente para o caranguejo. Tudo aí é, foi, ou está para ser, caranguejo, inclusive a lama e o homem que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz. Quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive dela, cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fabricando com a lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas.Por outro lado, o povo vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo e com sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a do corpo de seus filhos.São duzentos mil indivíduos, duzentos mil cidadãos feitos de carne de caranguejos. O que o organismo rejeita volta como detrito para a lama do mangue para virar caranguejo outra vez.Nesta aparente placidez do charco desenrola-se, trágico e silencioso, o ciclo do caranguejo. O ciclo da fome devorando os homens e os caranguejos, todos atolados na lama." (...)(Josué de Castro, 1967, p.26)
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Cara, o que aconteceu????????
Composta em 1962 por Vinícius de Moraes e Tom Jobim, Garota de Ipanema marcou época e talvez seja a canção brasileira mais conhecida mundo afora. Contudo, isto pode mudar. Hoje, 40 anos depois, o hit do momento é a música "Ai se eu te pego", Michel Teló.
Antes de qualquer julgamento sobre a disparidade da qualidade de ambas as canções, gostaria de me atentar a uma coisa: o que fez os compositores citados se inspiraram a fazerem as respectivas letras? Rapidamente, respondo: "Com uma ereção é claro!" Enquanto Vinícius se inspirava na beleza inocente de Helô Pinheiro, que aos seus 17 anos andava distraidamente pelas areias quentes de Ipanema, Teló deve ter sentido algo semelhante com alguma marombada de silicone por aí numa boate da vida.
E é esta a principal diferença dos letristas e, principalmente das épocas em que estão inseridos: Vinícius e Tom sabiam como lidar e desenvolver uma bela letra após se sentirem atraídos por uma jovem mulher. É a diferença da capacidade de cada um que coloca os indivíduos nos seus respectivos patamares.
Caso for necessário estabelecer algum tipo de paralelo entre as músicas, segue o link com letra e vídeo.
Por isso, me indigno. Como uma dita "música", composta por uma dúzia de palavras que são, no mínimo, grotescas pode vir a ser um sucesso mundial nos dias de hoje? Tem até versão em inglês! Ora, mas Garota de Ipanema também foi reconhecida (merecidamente) internacionalmente com direito a versões cantadas por grandes da música como Frank Sinatra, Mariza, Cher, Madonna, entre outros. Este é o ponto crucial: esta geração aceita qualquer merda. Escuta qualquer coisa, desde que esteja na moda. Os níveis de exigência estão lá em baixo. Certa vez, um amigo meu vasculhava meu mp3 - que continha boas músicas de rock, só que algumas em um tom um pouco mais alternativo - e ele disse que não gostou delas, disse que eu só tinha música "estranha". E perguntei, "São 'estranhas' por que a maioria dos adolescentes brasileiros a ouvem?". "Sim" foi a resposta. Então porra, quer dizer, o grau de qualificação de músicas são medidos pelo número de ouvintes. E não falo da qualidade dos ouvintes, se ouvem boas músicas ou não, e sim da quantidade.
Às vezes me pergunto o que aconteceu?? Digo, não vivi em 62. Não escutei discos de vinil, não compro revistas pra saber do que rola pelo mundo. É tudo online agora. Atualmente, o problema é que muitas pessoas, que a partir, principalmente, do momento em que entram na puberdade, começam a perder cada vez mais a autenticidade e constroem suas vidas na rede. Então o cara não sabe aproveitar o mundo que tem, que é a Internet. Em muitas ocasiões, colegas e amigos, chegavam pra mim no Messenger num domingo de frio e chuva e diziam que estavam completamente entediados. E me pergunto, o que tem no computador dele? A web dele é limitada a vagalume, 4shared, facebook e msn?
E fico com indagações no ar. Sem querer generalizar, porque tudo tem as suas próprias exceções, mas o que aconteceu de errado com essa geração? Como se chegou a isto? I mean, wtf, man!?!?!? Tem muito moleque de 12, 13 anos aí que é fã de banda pela Wikipédia. Sabe a carreira toda dos caras apenas pra dizer e se colocar como superior à "ralé". Por isso, o que mais tem hoje são crianças no limbo musical, que não sabe o que curte. Escuta o som, a batida, a letra e fica indecisa e por fim acaba escolhendo o fluxo, o que tiver mais gente ouvindo e comentando.
Cara, isso é patético.
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