segunda-feira, 23 de abril de 2012

Vida a dois

CARLOS EDUARDO NOVAES


Juro que nunca entendi bem este casamento do Capitalismo com a Democracia. É claro que ambos precisariam encontrar um parceiro diante da impossibilidade de tocarem suas vidas, sozinhos. O Capitalismo é um sistema econômico e depende de um regime político que o mantenha de pé e lhe permita ganhar dinheiro. Já a Democracia é apenas uma boa moça que necessita de alguém que a sustente e pague suas despesas.

Digamos que o Capitalismo entrou em um desses sites de relacionamento de casais e deu de cara com a Democracia.

- É com essa que eu vou! - berrou o Capitalismo.

Casaram-se e, como acontece nos casamentos, os primeiros anos foram de juras de amor eterno. Com o tempo, porém, as crises começaram a pipocarr O Capitalismo sempre foi um tipo instável, temperamental, sem princípios sólidos, que gosta de caminhar sobre suas próprias regras. A democracia por momento chegou a pensar que ele só se casara com ela para desfrutar do seu ideal de igualdade.

Tiveram dois filhos, a Bolsa e o Mercado. A Bolsa saiu ao pai, um temperamento ciclotímico e um comportamento cheio de altos e baixos que provocou uma crise monumental em 1929 e quase levou o casal à sepração. O Mercado, filho querido, cresceu e passou a tomar os negócios do pai. Ganhou fama,  e sempre que surgia um problema, alguém gritava: "Deixa que o Mercado resolve!". Às vezes, o Mercado metia os pés pelas mãos, o pai entrava em crise e logo chamavam a mãezona.

Nos primeiros anos do século passado, um casal gay - Comunismo e Totalitarismo - instalou-se na  casa ao lado, separada por um muro, e passou a infernizá-los. Barbudos, mal encarados, não havia um dia que não aparecessem na janela para xingar os vizinhos. FOram mais de 70 anos de difícil convivência, uma guerra surda (chegou a ser fria). Até que no final dos anos 80 o muro veio abaixo. Sua queda expôs a indigência da casa desmascarando as bravatas do casal gay (que se mudou para uma casinha no interior de Cuba). O Capitalismo soltou foguetes.

Não demorou muito, em 1997 - menos de 10 anos após a queda do muro - Bill Clinton, o afilhado preferido do Capitalismo, alertou o padrinho para não ir com tanta sede ao pote.

- Eu quero é mais! - bradou o pai do Mercado, se sentindo dono do mundo.

Não deu outra: jogando solto, sem ter que dar satisfações a ninguém, o Capitalismo perdeu a noção de limite a acabou mergulhando em uma crise existencial que parece não ter fim. A Democracia achou que deveria alertá-lo para o descontrole nas finanças do casal.

- Você não se mete - disse ele - Você não entende nada disso!

Hoje ele respira por aparelhos. Uma junta médica reunida em Davos para diagnosticar seus males admitiu que para recuperar a saúde (e o prestígio) o Capitalismo teria que promover mudanças profundas no seu comportamento. Sua mulher tenta ajudá-lo:

- Você precisa ser mais humano, mais solidário, mais preocupado com o meio ambiente. Deixar de pensar tanto em dinheiro, ser menos ganancioso...

- Como? - reagiu ele, certo de que não vai morrer - Se eu mudar em tudo que estão me pedido vou deixar de ser o Capitalismo! É isso que você quer? É isso?

A Democracia não respondeu. Virou-lhe as costas e saiu resmungando:

- Eu devia ter me casado com o Socialismo!

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