A partir do momento de meus primeiros suspiros estou num gradual processo de "sobriamento" de ideias e atitudes. Desde moleque, assustava coleguinhas com frases ofensivas e aterrorizava professoras com perguntas de ébria malícia. Em certa ocasião, em um dia de aula, a tia tinha liberado os alunos para ficarem conversando antes do sinal do intervalo tocar. Era venerado pro futebol e não perdia a chance de fazer a pelota rolar. Logo, estava ansioso para o início do recreio. Para fazer o tempo passar mais depressa, procurei alguém pra bater um papo. No meio de uma conversa oriunda de um assunto desconhecido, perguntei a idade do meu colega. Disse que tinha x anos (o mesmo que eu, na época). Perguntei em que mês havia nascido e respondeu que sua mãe o tinha parido em junho. Empolgado, exclamei que viveria mais do que o sujeito, porque o dia em que nasci é em julho. E, como toda criança tem o costume de tirar sarro da outra, repiti seguidas vezes que ele morreria antes de mim. Conclusão lógica: lágrimas e "Tiaaaaaaaa!". No canto, fui chamado para uma conversinha. Me indagou o motivo de falar que o garoto iria morrer. Esmiucei a situação e falei que não era bem assim. Que eu apenas havia dito que eu viveria um mês mais do que ele. Sucedeu-se um esporro recheado de eufemismos de que não me recordo direito, falando que não era a data de nascimento que marcava a de falecimento também. Revoltado, tentei explicar que pra mim era assim e pronto! Consequência: sem recreio e sem bola. Um absurdo! Jamais passaria pela minha ambiciosa - mas presunçosa - mente tal suposição esdrúxula de que meus preciosos minutos chutando a redonda e criando confusões para os inspetores, seriam trocados por momentos tão vagarosos e maçantes como aqueles na sala da tia.
Não era idiota. A começar do dia seguinte, comecei a conter minha aflição, pois já sabia que poderia qualquer ação exaltada poderia custar os mais voluptuosos instantes que um dia comum de semana poderia me oferecer.
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