quinta-feira, 22 de março de 2012

A hora do silêncio

Para as ruas era apenas mais um dia, rotineiro. O calor era escaldante. O ar condicionado do carro estava quebrado. Abria-se as janelas. Ecoava o voraz ruído proveniente de um fluxo acentuado de automóveis, que tomava conta do ambiente e do humor das pessoas que ali estavam. Ocasionalmente, uma leve brisa conseguia escapar para dentro do carro e fazia dar-se sopros de esperança perante tamanha situação agoniante.

O professor que dirigia o carro estava artomentado: não encontrava vagas. Já havia rodado não só a Vieira Souto inteira, mas também a Visconde de Pirajá. Enxergava a Prudente de Morais como última saída para salvar a aflição. A economista que estava no banco do carona insistiu em fazer a contagem do tempo, se bem que o professor fazia pouco caso. Não era um simples cálculo em que se olhasse no relógio de tempos em tempos, mas era como se fosse algo que medisse a estupidez que foi ter saído para ir à praia num domingo de carnaval, perto do meio-dia. A economista não perdia a oportunidade de salientar que sua ideia era melhor: defendia o argumento de ter acordado cedo, tomado um breve café da manhã e já ter saído de casa em Laranjeiras, às 8h, pegar o 569 e sem delongas, descido na Visconde de Pirajá, andado dezenas de passos e apreciado um bom dia de praia. Mas o professor tinha de ter ao menos 10 horas de sono. Não gostava de socializar e falar com muitas pessoas. Não gostava da ideia de andar de ônibus (perigoso demais). Seu intestino só funcionava às 9h. Seu pênis só ficava ereto de 11h a 15h e de 20h à 1h.  Seu sobrenome era alemão: Fresch Urah.

Além de sofrer com máximas exasperadas da economista (algumas sem sentido, como "Pra que você quis vir de carro? Você sabe que este é um bairro velho!"), o economista se deparava com um trânsito caótico. A procura era incessante por um oásis num deserto em que lagarto come cobra e o fogo ardente não tem data de validade. Os óculos pretos mal ocultavam a imagem de vertigem dilatada pelo asfalto. O daqui a pouco não chegava nunca. Parecia que o sinal estava vermelho há mais de meia hora.

A mente do professor, de companhia culta e deleitável, começava a desmoronar. A inação do carro antagonizada com o ritmo eletrizante de todo o resto (buzinas, apitos, chocalhadas vindas da parte de trás do carro, acompanhadas pelo choro do bebê no banco de trás, calor e freneticidade nas palavras da mulher) enlouquecia um cérebro ávido por acontecimentos relevantes e geniais. Seu psicológico simulava a imagem de que estava farto da situação. Olhava em volta e não achava nada que pudesse compreendê-lo. Nem mesmo os malabaristas de sinal o deixava em paz. Estava atônito por estar tendo que raciocinar de forma tão neurótica. A economista, começando a se tornar ciente do estado do motorista parou e pensou. Refletiu por um curto tempo. Percebeu que não só o clima estava afobado, mas ela também. Pegou na mão do marido, a trouxe até a boca e deu um carinhoso beijo. Se desculpou e clamou por compreensão. Revelou que em algumas situações não media bem as palavras em relação à situação: se era condizente ou não.

A cor do semáforo brincava de passar do vermelho ao verde, deste ao amarelo e novamente ao vermelho. O engarrafamento agora estava concretizado: uma van havia batido na traseira de um Gol, interditando a pista inteira. A economista falava manso com o professor e apaziguava a situação. Pegou o bebê no colo e lhe fez dengo. Pôs-se a colocar no cdplayer uma música que acalmasse os ânimos. Escolheu um álbum do Zeca Baleiro.

Com um drible sagaz, a economista se livrou de qualquer problema. Não açoitava pensamentos ruins e se enchia de otimismo. O professor começou a perguntá-la do porquê de tal reação inicial, que mal em palavras conseguiu descrever. Se rendeu aos braços do professor. Mesmo por um motivo relativamente simples, a economista não gostava de fazer o marido se sentir mal. Ainda mais quando o professor começava a cortejar a insanidade.

Em meio ao vai e vém da conversa, nuvens passaram sobre os céus da bonita e charmosa Ipanema, refrescando a temperatura, que até ali havia permanecido constante. Funcionários da Prefeitura finalizavam a limpa do estrago feito pela batida causadora de poucos inebriantes e longos instantes. A fila de carros começava a andar. O bebê já dormia profundamente de bruços no banco traseiro, com cara de anjo e as mãos sobre o chocalho feito de caroços de feijão e 2 potes de Danoninho. O disco já havia terminado e o casal estava feliz, pela primeira vez no dia.

Após por em marcha lenta o seu antigo Opala, o professor atordoou-se: havia uma vaga à esquerda. Logo em seguida de passar de forma veloz e sedutora pela sua cabeça o pensamento de abandonar a Missão Praia, o alívio imperava as entranhas do professor. Rapidamente estaciona o carro na vaga. Atordoado, dá um beijo delicado, porém cheio de tesão na economista. Para ambos agora, o foco era a folga.

Antes de partirem para curtir momentos de descanso, o professor, ainda inquieto, dirigiu-se ao pé do ouvido da economista. Disse que era o que guiava sua vida e que sem ela não conseguiria viver. Contudo, algo ainda lhe atormentava. A ideia de atribuir a prédios velhos um engarrafamento lhe parecia insana. A economista explicou que Ipanema é um bairro que foi fundado no final do século XIX e enorme quantidade de edifícios foram engendrados no começo do século XX. Na época, não existiam muitos carros, logo não arquitetava-se muito espaço direcionado à garagem. Consequentemente, a partir dali, os futuros moradores tiveram que procurar vagas na rua. Com o desenvolvimento urbano, aquela área começou a não suportar o enorme fluxo de carros circulando, que começaram a clamar por um local para deixar o carro.

De certa forma atordoada, o professor saiu do carro. Abriu a porta para a mulher e o bebê e os abraçou. Respirou profundamente e puseram a marchar em direção à areia. O dia já estava no final e muitos iam embora. Encontraram um lugar calmo, mais isolado dos demais. Ali, não havia espaço para os mais diversos tipos de buzinas fuzilando e poluindo sonoramente o ar. Instalaram-se em cadeiras de praia e ficaram observando o horizonte. A paz e a tranquilidade reinavam. Compartilharam não só o barulho da quebra das ondas e o lindo e tricolor pôr do sol, mas também algo singular, puro e raro: o silêncio.

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