Para as ruas era apenas mais um dia, rotineiro. O calor era
escaldante. O ar condicionado do carro estava quebrado. Abria-se as
janelas. Ecoava o voraz ruído proveniente de um fluxo acentuado de
automóveis, que tomava conta do ambiente e do humor das pessoas que ali
estavam. Ocasionalmente, uma leve brisa conseguia escapar para dentro do
carro e fazia dar-se sopros de esperança perante tamanha situação
agoniante.
O professor que dirigia o carro estava artomentado: não
encontrava vagas. Já havia rodado não só a Vieira Souto inteira, mas
também a Visconde de Pirajá. Enxergava a Prudente de Morais como última
saída para salvar a aflição. A economista
que estava no banco do carona insistiu em fazer a contagem do tempo, se
bem que o professor fazia pouco caso. Não era um simples cálculo em que
se olhasse no relógio de tempos em tempos, mas era como se fosse algo
que medisse a estupidez que foi ter saído para ir à praia
num domingo de carnaval, perto do meio-dia. A economista não perdia a
oportunidade de salientar que sua ideia era melhor: defendia o argumento
de ter acordado cedo, tomado um breve café da manhã e já ter saído de casa em
Laranjeiras, às 8h, pegar o 569 e sem delongas, descido na Visconde de
Pirajá, andado dezenas de passos e apreciado um bom dia de praia. Mas o
professor tinha de ter ao menos 10 horas de sono. Não gostava de
socializar e falar com muitas pessoas. Não gostava da ideia de andar de
ônibus (perigoso demais). Seu intestino só funcionava às 9h. Seu pênis
só ficava ereto de 11h a 15h e de 20h à 1h. Seu sobrenome era alemão:
Fresch Urah.
Além de sofrer com máximas exasperadas da
economista (algumas sem sentido, como "Pra que você quis vir de carro?
Você sabe que este é um bairro velho!"), o economista se deparava com um
trânsito caótico. A procura era incessante por um oásis num deserto em
que lagarto come cobra e o fogo ardente não tem data de validade. Os
óculos pretos mal ocultavam a imagem de vertigem dilatada pelo asfalto. O
daqui a pouco não chegava nunca. Parecia que o sinal estava vermelho há
mais de meia hora.
A mente do professor, de companhia
culta e deleitável, começava a desmoronar. A inação do carro
antagonizada com o ritmo eletrizante de todo o resto (buzinas, apitos,
chocalhadas vindas da parte de trás do carro, acompanhadas pelo choro do
bebê no banco de trás, calor e freneticidade nas palavras da mulher)
enlouquecia um cérebro ávido por acontecimentos relevantes e geniais.
Seu psicológico simulava a imagem de que estava farto da situação.
Olhava em volta e não achava nada que pudesse compreendê-lo. Nem mesmo
os malabaristas de sinal o deixava em paz. Estava atônito por estar
tendo que raciocinar de forma tão neurótica. A economista, começando a
se tornar ciente do estado do motorista parou e pensou. Refletiu por um
curto tempo. Percebeu que não só o clima estava afobado, mas ela também.
Pegou na mão do marido, a trouxe até a boca e deu um carinhoso beijo.
Se desculpou e clamou por compreensão. Revelou que em algumas situações
não media bem as palavras em relação à situação: se era condizente ou
não.
A cor do semáforo brincava de passar do vermelho
ao verde, deste ao amarelo e novamente ao vermelho. O engarrafamento
agora estava concretizado: uma van havia batido na traseira de um Gol,
interditando a pista inteira. A economista falava manso com o professor e
apaziguava a situação. Pegou o bebê no colo e lhe fez dengo. Pôs-se a
colocar no cdplayer uma música que acalmasse os ânimos. Escolheu um
álbum do Zeca Baleiro.
Com um drible sagaz, a
economista se livrou de qualquer problema. Não açoitava pensamentos
ruins e se enchia de otimismo. O professor começou a perguntá-la do
porquê de tal reação inicial, que mal em palavras conseguiu descrever.
Se rendeu aos braços do professor. Mesmo por um motivo relativamente
simples, a economista não gostava de fazer o marido se sentir mal. Ainda
mais quando o professor começava a cortejar a insanidade.
Em
meio ao vai e vém da conversa, nuvens passaram sobre os céus da bonita e
charmosa Ipanema, refrescando a temperatura, que até ali havia
permanecido constante. Funcionários da Prefeitura finalizavam a limpa do
estrago feito pela batida causadora de poucos inebriantes e longos
instantes. A fila de carros começava a andar. O bebê já dormia
profundamente de bruços no banco traseiro, com cara de anjo e as mãos
sobre o chocalho feito de caroços de feijão e 2 potes de Danoninho. O
disco já havia terminado e o casal estava feliz, pela primeira vez no
dia.
Após por em marcha lenta o seu antigo Opala, o
professor atordoou-se: havia uma vaga à esquerda. Logo em seguida de
passar de forma veloz e sedutora pela sua cabeça o pensamento de abandonar a Missão
Praia, o alívio imperava as entranhas do professor. Rapidamente estaciona o
carro na vaga. Atordoado, dá um beijo delicado, porém cheio de tesão na
economista. Para ambos agora, o foco era a folga.
Antes
de partirem para curtir momentos de descanso, o professor, ainda
inquieto, dirigiu-se ao pé do ouvido da economista. Disse que era o que
guiava sua vida e que sem ela não conseguiria viver. Contudo, algo ainda
lhe atormentava. A ideia de atribuir a prédios velhos um engarrafamento
lhe parecia insana. A economista explicou que Ipanema é um bairro que
foi fundado no final do século XIX e enorme quantidade de edifícios
foram engendrados no começo do século XX. Na época, não existiam muitos
carros, logo não arquitetava-se muito espaço direcionado à garagem.
Consequentemente, a partir dali, os futuros moradores tiveram que
procurar vagas na rua. Com o desenvolvimento urbano, aquela área começou
a não suportar o enorme fluxo de carros circulando, que começaram a
clamar por um local para deixar o carro.
De certa forma atordoada, o professor saiu do carro. Abriu a porta para a mulher e o bebê e os abraçou.
Respirou profundamente e puseram a marchar em direção à areia. O dia já
estava no final e muitos iam embora. Encontraram um lugar calmo, mais
isolado dos demais. Ali, não havia espaço para os mais diversos tipos de buzinas fuzilando e poluindo sonoramente o ar. Instalaram-se em cadeiras de praia e ficaram observando
o horizonte. A paz e a tranquilidade reinavam. Compartilharam não só o
barulho da quebra das ondas e o lindo e tricolor pôr do sol, mas também
algo singular, puro e raro: o silêncio.
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