domingo, 12 de fevereiro de 2012

Da lama a lama - 15 anos sem Chico Science


A lama tem um sentido especial para o mangue, é dela que se nutre sua verde e frondosa vegetação, onde são construídas quilométricas galerias pelas quais circulam os caranguejos. Com ela é forjado o cerco entre rio e mar dando forma a ambientes assimétricos provedores de um fluxo vital constantemente transformado e renovado assegurando a manutenção da ordem em meio à dinâmica natural do caos.

O cenário liquefeito/heterogêneo ainda hoje não se permite solidificar por toneladas de concreto, "insaneamento" básico e descaso, ao passo que ininterrupto margeia um caminho resistente e sem silenciar regenerando-se com propriedade hepática (cuja qual nem as mais avançadas técnicas de cultivo e manejo da agricultura celeste poderiam subsidiar), enquanto presencia o cataclisma urbanóide.

Indo um pouco mais adiante e sem querer rasgar muita seda, a metáfora mangue, surgida há 21 anos quase completos, deu origem à cooperativa cultural subversora de lógicas e práticas até então "invioláveis" ao apropriar-se da ainda primitiva tecnologia digital, da ficção científica, do futurismo, do centro, da periferia, da cidadania mundial, da gréia e enfaticamente (mas não acima de tudo) da música.

Chico e sua ciência foram peças chave na emergência do Manguebeat. Como mercador ambulante, passeou pelos tambores do maracatu, pelas rodas de coco e ciranda, nas ruas do Bronx/Brooklyn, Rio Doce, Peixinhos, Chão de Estrelas, Aurora até o Pina; chegou longe em pouco tempo e carregou para onde foi Pernambuco e seus mestres: Josué de Castro, João Cabral, Lia de Itamaracá, Lampião, Mestre Salu, Zumbi e tantos outros; foi embora muito cedo também, mas seu passado, mesmo depois de 15 anos de partida ainda se faz presente no consciente coletivo da Manguetown, seja em um grafite de rua, no som das carroças de disco pirata ou na conversa entre amigos, de toda maneira, a saudade para aqueles que o conheceram fica, assim como a vontade de ter visto um show para os demais.

                                                      

A analogia entre a diversidade dos mangues e a cena que ajudou a criar é pertinente ao momento, uma passagem do romance “Homens e Caranguejos” vem a mente quando Josué de Castro narra o homem do mangue em uma relação beirando a simbiose com o caranguejo, tais personagens se complementam e reconfiguram o ambiente num ciclo de elementos conectados entre si e com a lama, lugar final onde homens e caranguejos se tornariam um só.

(...) "Os mangues do Recife são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita para o homem, com tudo para bem servi-lo, o mangue foi feito especialmente para o caranguejo. Tudo aí é, foi, ou está para ser, caranguejo, inclusive a lama e o homem que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz. Quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive dela, cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fabricando com a lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas.
Por outro lado, o povo vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo e com sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a do corpo de seus filhos.
São duzentos mil indivíduos, duzentos mil cidadãos feitos de carne de caranguejos. O que o organismo rejeita volta como detrito para a lama do mangue para virar caranguejo outra vez.
Nesta aparente placidez do charco desenrola-se, trágico e silencioso, o ciclo do caranguejo. O ciclo da fome devorando os homens e os caranguejos, todos atolados na lama." (...)
(Josué de Castro, 1967, p.26)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Cara, o que aconteceu????????

Composta em 1962 por Vinícius de Moraes e Tom Jobim, Garota de Ipanema marcou época e talvez seja a canção brasileira mais conhecida mundo afora. Contudo, isto pode mudar. Hoje, 40 anos depois, o hit do momento é a música "Ai se eu te pego", Michel Teló. 

Antes de qualquer julgamento sobre a disparidade da qualidade de ambas as canções, gostaria de me atentar a uma coisa: o que fez os compositores citados se inspiraram a fazerem as respectivas letras? Rapidamente, respondo: "Com uma ereção é claro!" Enquanto Vinícius se inspirava na beleza inocente de Helô Pinheiro, que aos seus 17 anos andava distraidamente pelas areias quentes de Ipanema, Teló deve ter sentido algo semelhante com alguma marombada de silicone por aí numa boate da vida. 

E é esta a principal diferença dos letristas e, principalmente das épocas em que estão inseridos: Vinícius e Tom sabiam como lidar e desenvolver uma bela letra após se sentirem atraídos por uma jovem mulher. É a diferença da capacidade de cada um que coloca os indivíduos nos seus respectivos patamares.

Caso for necessário estabelecer algum tipo de paralelo entre as músicas, segue o link com letra e vídeo.


Por isso, me indigno. Como uma dita "música", composta por uma dúzia de palavras que são, no mínimo, grotescas pode vir a ser um sucesso mundial nos dias de hoje? Tem até versão em inglês! Ora, mas Garota de Ipanema também foi reconhecida (merecidamente) internacionalmente com direito a versões cantadas por grandes da música como Frank Sinatra, Mariza, Cher, Madonna, entre outros. Este é o ponto crucial: esta geração aceita qualquer merda. Escuta qualquer coisa, desde que esteja na moda. Os níveis de exigência estão lá em baixo. Certa vez, um amigo meu vasculhava meu mp3 - que continha boas músicas de rock, só que algumas em um tom um pouco mais alternativo - e ele disse que não gostou delas, disse que eu só tinha música "estranha". E perguntei, "São 'estranhas' por que a maioria dos adolescentes brasileiros a ouvem?". "Sim" foi a resposta. Então porra, quer dizer, o grau de qualificação de músicas são medidos pelo número de ouvintes. E não falo da qualidade dos ouvintes, se ouvem boas músicas ou não, e sim da quantidade.

Às vezes me pergunto o que aconteceu?? Digo, não vivi em 62. Não escutei discos de vinil, não compro revistas pra saber do que rola pelo mundo. É tudo online agora. Atualmente, o problema é que muitas pessoas, que a partir, principalmente, do momento em que entram na puberdade, começam a perder cada vez mais a autenticidade e constroem suas vidas na rede. Então o cara não sabe aproveitar o mundo que tem, que é a Internet. Em muitas ocasiões, colegas e amigos, chegavam pra mim no Messenger num domingo de frio e chuva e diziam que estavam completamente entediados. E me pergunto, o que tem no computador dele? A web dele é limitada a vagalume, 4shared, facebook e msn?

E fico com indagações no ar. Sem querer generalizar, porque tudo tem as suas próprias exceções, mas o que aconteceu de errado com essa geração? Como se chegou a isto? I mean, wtf, man!?!?!? Tem muito moleque de 12, 13 anos aí que é fã de banda pela Wikipédia. Sabe a carreira toda dos caras apenas pra dizer e se colocar como superior à "ralé". Por isso, o que mais tem hoje são crianças no limbo musical, que não sabe o que curte. Escuta o som, a batida, a letra e fica indecisa e por fim acaba escolhendo o fluxo, o que tiver mais gente ouvindo e comentando. 

Cara, isso é patético.