terça-feira, 24 de abril de 2012

Por quê?

Por que é necessário à minha vida aprender Física? Por que o meu sucesso futuro depende das aulas entediantes de Biologia? Por que sou forçado a acordar todos os dias às 6h quando poderia render mais se levantasse às 10h? Por que não posso apenas me ater à arte e viver dela? Por que o dinheiro há de reinar? Por que é adotado um sistema baseado no dinheiro? Por que uma pessoa é considerada melhor que a outra pelo que consome? Por que não vemos a valorização da arte e da liberdade de expressão? Por que o dinheiro é a chave para a sobrevivência? Por que o sistema me impede que a minha vida seja custeada por livros, músicas e filmes? Por que tenho que pagar por tudo? Por que o capital é necessário? Por que não posso ir à França sem um tostão? Por que me falaram que o público é de todos, quando não é? Por que me impuseram a falsa verdade de que posso ir aonde quiser, quando quiser, se quiser? Por que a minha vida há de ser semelhante à dos outros, tendo que passar pela mesma coisa? Por que existe o vestibular? Por que não se faz que nem na Argentina, em que não precisa-se pagar para entrar, nem fazer uma prova, apenas se manter no curso (que é de alto nível, diga-se de passagem)? Por que tenho que redigir uma redação extremamente mecanizada, para ter uma nota julgada por uma banca de professores que já leram e revisaram dezenas, quiçá centenas de textos no dia e que estão exaustos de tanta correção, para passar no vestibular? Por que não nos é requisitado inovação e brilhantismo? Por que transformaram toda a nossa vida num rígido protocolo? Por que a minha vida não é de minha posse? Por que o dito Estado manipula a situação de todos? Por que tenho de me preocupar com a função química do paracetamol se quero ser escritor? Por que falar de geopolítica se quero estudar Psicologia e entender o ser humano? Por que tudo nos lhe é imposto sem nem nos perguntarmos o que desejamos ou não? Por que essa inércia toda? Por que acatamos tudo de maneira tão submissa? Por que consentimos com isso? Por que tanta nojenta incoerência passa por despercebida por nós e tudo continua na mesma? Por que muitos estão aí parados, querendo ser engenheiros? Por que querem ser só mais um? Por que não tentam mudar o país, o sistema? Por que se escondem por detrás de tanta covardia, tendo entendido minimamente como funciona o sistema? Por que esquece das suas aulas de História? Por que os cursos de humanas são menos valorizadas que os de exatas? Por que não formamos muitos pensadores e apenas verdadeiros escravos cegos fazedores? Por que mais operários e menos articuladores? Por que um prédio é mais importante que um livro do Julio Cortázar? Por que leu o nome desse genial autor e não o reconheceu? Por que nosso ambiente de vida nos causa horror? Por que encontramo-nos petrificados, de forma irreparável? Por que temos de viajar para inventar o futuro espacial e idealizar outras versões de novos eus? Por que a música de verdade não é mais o mainstream? Por que diabos nos afastaram das improvisações guardadas em um disco, do timbre de uma voz, dos produtos de uma hora feliz? Por que há a vulgarização da música? Por que o bom é ruim? Por que alucinações, relfexões e divagações feitas sob um céu limpo, sem prédios, cheio de estrelas não são mais valorizadas? Por que o que é de belo na vida não é o mais importante? Por que a grande onda que carrega nós, nadadores, corre sobre o oculto dorso das areias? Por que tantas indagações atingem um grupo tão ínfimo de poucas pessoas? Por que nosso sofrimento é este regozijo contínuo de querer vencer o outro? Por que não nos fixamos em ser o melhor de nós mesmos, e não o melhor do outro? Por que é chato e entediante ler um escritor tagarela e azucrinado por suas meditações baseadas em fantasias e devaneios? Por que gênios ainda são inócuos perante o sistema? Por que usamos tantos eufemismos? Por que a verdade está sempre tão distante? Por que o superficial está tão contíguo a nós? Por que de forma não mais tão espantosa, assuntos supérfluos tomam conta de não só um, mas vários, mares de gente? Por que nos tornamos cada vez mais pessoas robotizadas? Por que não sentimos vergonha de um passado, sim indelével, e não fazemos de nada para mudar o futuro? Por que os pensadores sentem-se deslocados, fora do trato social? Por que não somos todos um conjunto harmônico, só de irmãos, cuidando uns dos outros? Por que tacamos fogo numa pessoa por ela ser um índio? Por que educamos crianças ineptas ao convívio em sociedade? Por que tenho credibilidade com você? Por que conclui de forma árdua, me aguentar e ler esse texto inteiro? Por que não parou na metade, no meio de tantas perguntas que certamente não serão nocivas aos planos dos deuses da política e do dinheiro? Por que me sinto covarde e impotente? Por que não me questionou, antes de começar, o motivo de ler esse texto? Por que a esse ponto considera estar perdendo seu tempo com minhas palavras, além de reputar-me como ingênuo e sem a malícia necessária para um revolucionário? Por que diabos te sequestrei para conhecer um pouco mais de minha embriaguez inocente? E aí, já se perguntou porquê?

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