terça-feira, 31 de julho de 2012

Imprevisível imprevisibilidade

Uma linda mulher encontrava-se sentada à mesa de um bar fino, que tocava apenas bossa e blues, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Chamava a atenção de todos. Um decote provocante, lábios rosas e delicados, pouca maquiagem, coxas exuberantes, um cabelo longo, negro e liso. Seus brincos, perolados, combinavam com a sua pele clara, branca igual leite, que reluzia, mesmo com o ambiente rústico de pouca iluminação do bar. Certamente, os vários atraídos pela série de características enumeradas acima ficavam mais ansiosos ainda a cada vez que a mulher olhava o celular. Não se sabe se para conferir se havia alguma mensagem, ligação, quiçá até para ver a hora.  E era isso o que justamente mais intrigava os tentados a solicitar pela ocupação da cadeira vazia ao lado da mulher. Mas espere, caro leitor, não se entusiasme tanto. Não falarei de uma mulher que ronda as ruas cariocas como se fossem um grande meretrício. Também não haverão apelos sexuais e ninguém tentará cortejá-la enquanto toma sua caipirinha de limão. 

Mas ela sim, esperava por um homem, seu grande amor do Ensino Médio. Acidentalmente tiveram um filho e apenas ele teve a oportunidade de fazer uma faculdade. Acabou-se que, por fim, o marido encontrava-se cada vez mais apaixonado. Não por ela, pelo filho ou até pelo próprio sentimento de paixão, mas pelo seu trabalho. Obsessivamente, dava aulas de Sociologia na rede pública. Tentava por tudo mudar o quadro educacional o qual fora inserido na adolescência  e então começou a deixar de lado, até que inconscientemente, a família.

Antes de pedir ao garçom outra caipirinha, verificou o meio de suas pernas para ver se sua calcinha aparecia, já que estava de saia, e logo cruzou as pernas. Após anotar o seu pedido, o trabalhador daquele restaurante direcionou-se à cozinha. Ao abrir a porta, um cheiro de fritura pairou no ar. Não, não era algo qualquer. Era cheiro de cebola. Cebola refogada. Levemente queimada, decerto.  Instantaneamente, o sistema nervoso da mulher estimulou a produção de saliva pelas suas glândulas salivares. Os odores e os ruídos habituais em um bar se acumulavam à volta da mulher como numa espécie de despedida. Não era pra menos: em momentos, estava por se sentar à sua frente o suado e aflito futuro ex-marido.

Qualquer sensação de prazer com os aromas da cozinha foram breves e rapidamente se esvaíram. Afinal, haviam marcado de se encontrarem. Mas o professor não fazia ideia do que lhe era esperado: o divórcio. Pela expressão facial da mulher, experimentou uma vaga sensação de alarme, de forma silenciosa. Antes mesmo que o som das palavras lhe fossem captadas pelos seus ouvidos, sua mente já registrava as possibilidades de assunto da conversa. Calculou ser quase nula a probabilidade de que o papo seria tratado de maneira informal. Pelo visto, a coisa era séria. A partir do primeiro instante que a mulher começou a proferir o seu discurso, o professor se viu condenado a passar muitas noites em claro, divagando, devaneando, com uma sensação de amargura de si mesmo por ter deixado moça tão pura e tão pouco materialista ficar totalmente insatisfeita com o relacionamento, que, imperceptivelmente, degringolou-se.

Com o fim da conversa, houve o estranho consentimento da separação. Sem súplicas, o professor pôs-se a caminhar para fora do bar. Desgostoso consigo mesmo, não podia deixar barato o que deixara acontecer. Julgou merecer uma punição. E, não bastasse a turbulência de pensamentos auto-degradantes, resolveu castigar a seu corpo. Um uísque barato foi comprado em um boteco de aparência asquerosa. A partir dali, a bebida começou a articular pilhérias no intelecto do professor. O que poderia ser uma noite de quarta-feira, como qualquer outra, começou a possuir grande potencial em se tornar fatídica.

A embriaguez, de perpétua intangibilidade, dominava e corroía as entranhas do professor. Não havia raiva nem ódio, apenas frustração, que a partir de um certo momento deixou de ser unicamente pela desunião conjugal. Uma fraca e impotente sensação de lamento por ter ingerido um volume grande de bebida destilada também passou a fazer parte dos conflitos internos do professor. Evidentemente, a vulgar dor de cabeça e as intensas ânsias de vômito atrapalhavam ao professor a fazer uma boa direção ao volante de seu carro. 

O vento, com um som semelhante ao silvo de locomotivas, envolvia o silêncio da sombria madrugada, que - com insônia - esperava ansiosa e impacientemente  por uma nova alvorada. Mal conseguindo enxergar as esquinas que fazia curva com o carro, o professor endireitou-se e reclinou-se em seu assento. Seus olhos, com  os vasos sanguíneos saltitando, se espremiam involuntariamente para tentar  avistar o que estava em sua frente.  No pequeno espaço de tempo que conseguiu ampliar o seu campo de visão, assustou-se com as luzes de uma viatura parada ao canto da avenida. Mesmo seguindo o curso perfeito da rua, seu primeiro reflexo foi girar o volante e, consequentemente, o seu carro,  que em alta velocidade chocou-se com um outro que estava estacionado. O previsível,  então, finalmente aconteceu.

O policial da viatura, mesmo sendo um samaritano nato, fazia a patrulha com inquietude peculiar e incomum. Aflito, olhava constantemente o relógio. O dia havia sido cinza, com clima cinza. Pelo visto, sua alma também estava cinza. Ao olhar um carro passar em sua frente de forma desgovernada e bater num carro mais à frente, se viu sem escolhas e foi ao desastrado motorista. Viu acordar atordoado o professor, que se desnorteou em uma intensa vertigem. Viu, pelo vidro, o policial se aproximar do carro. Resolveu abrir a porta do carro. Quando o fez, o policial já estava próximo ao carro, pronto para tirar satisfações com o sujeito. Contudo, tal ação foi interrompida pela expulsão repentina e violenta de uma grande quantidade de líquido amarelado do professor. O vômito, asqueroso, impregnou o odor do coturno do indivíduo fardado, que ali estendia-se de pé. Bravo, enraivecendo-se com a situação cada vez mais, o policial começa a soltar fumaça pelo orifício auricular. Sua face vermelheceu, estabilizando-se numa cor escarlate.

Em um movimento nada sutil, levantou a cabeça e o tronco do sociólogo e o tirou do automóvel completamente amassado, quase destruído. Com a situação sob controle, o policial rapidamente juntou os braços do professor para trás, num movimento específico para quando algema algum infrator. Entretanto, o porvir lhe proveu o inesperado. As algemas não se encontravam no bolso do policial e muito menos em seu cinto. Teria de levar o infrator à viatura para o algemar. Empurrou o professor de forma rude, mas cuidadosa, pois não gostaria que houvesse outra sessão de regurgitação. Como o professor estava mal ainda, aturdido, o policial nem se deu ao trabalho de fiscalizá-lo e o deixou enconstado no capô da viatura. Logo entrou no carro e começou a procurar pelas algemas metálicas, conquanto não estava no banco do carona nem no de trás. Enquanto isso, em um breve momento o qual a lucidez voltou ao professor e percorreu suas entranhas, o forte calor do capô do Gol do policial o fez levantar-se bruscamente. Obviamente o policial se assustou de tão repentino que foi o movimento. De repente, não estava mais de quatro, fuçando suas coisas, procurando pelas algemas e sim realocando o infrator ao seu devido lugar de espera.

Na curta caminhada de volta ao carro, se lembrou de ter deixado no portaluvas. Após ter a satisfação de alívio ao pegar as algemas dentro do portaluvas, concisamente se encaminhou ao infrator e logo imobilizou com as algemas as mãos do professor. Até este momento, apenas respingos, restos e pequenas cusparadas ocupavam a boca do professor. De repente, começou a resmungar e o policial, pacientemente, tentou entender os ruídos agudos que proferia o professor. Depois de certo tempo, o professor conseguiu unir dois ou três neurônios e os fazerem trabalhar em conjunto. Reuniu em sua mente a informação que gostaria de proferir e o fez:
- Muito bom. Ótimo trabalho o seu. Me admiro de não ter me pedido por propina.
- Não sou corrupto - respondeu seca e veementemente o policial - Jamais o faria. Cumpro minhas funções como policial, assim como você deve ter em seu emprego. Gosto disso, sinto como se fosse meu dever vigiar e punir quem infringe a lei. Semestre passado comecei a faculdade de direito.
Dando continuidade a conversa, de forma admirada o professor falou:
- Bem, parabéns, é notável que hoje em dia existam profissionais no ramo policial como você.
- Sim, claro, obrigado - respondeu o guarda confuso, por pensar estar lidando com um moribundo qualquer, bêbado ao volante.
E então, num súbito momento de auto-avaliação, o policial averiguou mental e rapidamente quem era. Sua pequena crise existencialista lhe abriu uma grande gama de objetivos e um clarão de ideias.
- Não vou mais te prender.
- Oi?!
- Não será mais preso.
- Ai meu pai...
- Decidi que estou destinado a coisas maiores - começou a tagarelar o policial -, não devo perder meu tempo prendendo motoristas embriagados. Eu conheço o dono do carro que bateu. Espere, que eu te passo o telefone dele.
- Por que não?
- Por que não o quê?
- Por que não irá me prender?
- Já lhe disse...
- Isso não é motivo! Eu infringi a lei! Ora bolas, só me faltava essa...
- Você não está feliz? Não irá para a cadeia! Olhe bem, já fui lá uma vez e a barra é bem pesada, viu...
- Seria uma grande hipocrisia dizer que não me importo de passar algum tempo lá, já que seria um grande desperdício. Mas entenda, sou professor de sociologia na rede pública e sou bem franco com meus alunos. O que vão lhes dizer sobre hoje? Que infringi a lei, dirigindo embriagado, batendo num carro,  insultando  verbalmente o senhor, vomitando em seus pés e sendo algemado e ainda saindo impune desta situação? Nananinanão, o senhor vai é me prender! Preciso dar o exemplo aos meus alunos.
- Sei lá, minta para eles, abra uma exceção... - disse o policial, que ficou impressionado pela clareza com que o professor expôs as suas ideias. Havia o mínimo sinal de embriaguez em sua voz e suas frases estavam todas coesas.
- Com todo respeito, mas o senhor tem problemas de audição?
- Como?
- Puta que pariu, pelo visto, tem mesmo... - murmurou para si mesmo - Problemas auditivos! Surdez! Eu disse que sou professor de sociologia e a ética é um dos assuntos que mais falo dentro da sala de aula! Seria uma tremenda incoerência mentir a eles ou então sendo solto pelo senhor!
- Mas você não entende.
- Me explique o que não entendo, faz o favor.
Os pequenos globos do professor quase saltavam de sua órbita ocular. Brilhavam de forma semelhante ao de um dependente químico, quando há dias não usufrui de sua droga.
- É o seguinte: eu não sou qualquer um não, ô cara. Sou esclarecido, leio bastante. Meu processo de reflexão sobre segurança pública é bastante enriquecido. Mas um policial qualquer não tem um papel tão atuante assim em nossa sociedade. Veja bem, estou conversando com um professor, bêbado, que bateu o carro, numa madrugada de sexta-feira! Sem querer desmerecer o senhor e depreciar os profissionais da segurança, mas creio que tenho vocação à coisas maiores. Creio estar perdendo o meu tempo, seja aqui com o senhor como também no quartel de polícia. Você, professor, passou pela faculdade, teve aula com vários intelectuais de sua área, sabe que não vivemos numa sociedade democrática. E como podemos falar em democracia, se hoje temos 550 mil policiais no Brasil, 45 mil, só no Rio? Numa sociedade igualitária não haveria tanta violência e, consequentemente, praticamente se extinguiriam os policiais. Novamente, sem desmerecer o senhor, mas este problema é muito maior que o me apresentou. Agora, se me dá licença...

Decidido, o policial resolveu abandonar o professor. Ele que se virasse para encontrar um meio de ir para casa, ou até de ir ao hospital. Em seu andar determinado ao carro, surpreendeu-se pelo professor não ter tentado impedi-lo. Continuava imóvel, quase catatônico. Embora preocupado, o policial bateu a porta do carro de forma grosseira e pôs-se a colocar a chave na ignição.

Enquanto estressava-se - outra vez no dia, desta com a tentativa frustrada de ligar o carro, que engasgava repetidamente - o professor subitamente levantou-se e de forma sorrateira e com passos curtos, foi chegando perto da viatura. Quando o policial se deu conta de onde estava o professor, não teve tempo nem de reagir: só viu a mão do professor vindo em direção ao seu rosto e lhe dar um barulhento tapa.

- Vai embora o caralho! Porra! Tô falando contigo e tu sai assim? - gritou o professor, nitidamente alterado.

O policial estourou. Mesmo não verbalizando nada, abriu a porta do carro e em um movimento único e bruto afastou o professor ao máximo do carro com um soco. Voltou ao carro e quando enfim conseguiu ligá-lo, arrancou com o carro. Ao olhar no retrovisor, riu do professor, que, tonteando, fazia sua voz ecoar por toda a rua:

- Policial filho da puta! Aonde já se viu? Não quer me prender! Vejam só! Volte aqui se é homem mesmo! Hã? Viu, foi o que pensei! Boiola, medroso! Vai voltar não? Pois é, ficou com medo, né?! Pois é, era pra eu tá preso! Pois é, sou da pá virada, mané! Não mexe comigo não, hein...

E, dando gostosas gargalhados, o policial comentou a si mesmo:

- E quer dar exemplo aos alunos... Tá certo.

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