Eu estava, de fato, viajando. Não só por estar me divertindo em cima do carrinho, mas também no sentido figurativo. Estava preso às minhas reflexões e divagações (ou será que estava em meio à liberdade?). Imaginava situações e fatos devaneados, em um plano distinto, num universo paralelo, quando subitamente a mulher do caixa do supermercado mais caro da cidade, me gritou. Pedia para eu colocar os produtos que eu iria comprar no caixa, afinal já eram 2h e creio que ela não queria perder muito tempo para chegar em casa, já que era dia de Faustão.
Completando a compra e o pagamento, pus-me a pedalar sobre outro objeto móvel: a bicicleta. Sobre ela, voltava para casa quando vi uma enorme sombra ir de encontro à minha posição. Me assustei, mas logo vi que era uma grande nuvem tapando o reflexo do sol. O vulto, contudo, não ocultava odores. A vizinha lavava o chão de sua garagem e em frente a minha casa, perambulando um terrível cheiro de bosta de cachorro, impregnando todos os cômodos possíveis da casa.
Imediatamente, fiquei indignado. Já havia a recomendação à vizinha que escoasse a água para o outro lado da rua, já que sua casa era a mais próxima de um bueiro. Além da contestação misantrópica de que as pessoas plebeias de nada construtivo servem, me senti extenuado mentalmente. Ora, era domingo, o meu dia. Já havia me dado o trabalho de sair de casa e comprar ovos para o paupérrimo almoço. Mas não é por aí que as coisas devem rolar: hoje é domingo. O dia de descanso, o dia do ócio.
E talvez este fosse o principal motivo de desprezo e repugnância com a vizinha: não respeitava o ócio alheio. Afinal, lastimáveis sertanejos em volume alto e berros com os cachorros estragam o dia de qualquer vizinho sensato. Bom senso este que me levou à uma pequena grande constatação de que as pessoas não tem a real ciência da relevância do ócio à nossa sociedade. Esta é tamanha que, com o passar do tempo passou de substantivo comum a substantivo próprio. O Ócio nada mais é do que aquele cara barrigudo, cabeludo, cansado, presunçoso, de barba a fazer, de banho a tomar e saco a coçar. Resumindo, eu sou a personificação do Ócio.
Putz, como sou distraído. Esqueci de me apresentar. Meu nome é Ócio, muito prazer. Deve me reconhecer dos seus fatídicos dias de domingo, mas me mudei: agora possuo casa fixa, RG e não me divido mais com ninguém. Agora sou poderoso, tenho meu próprio dia. Pode até achar que possui seus momentos ociosos, mas aí é que se engana, caro leitor. São apenas divagações. Eu já incorporei o ócio de forma tão profunda, que não sobrou nada para ninguém.
Decerto muitas perguntas já lhe passaram em sua cabeça. Algumas do tipo melancólico como: "O que é a nossa vida?"; "Qual o nosso objetivo aqui no planeta Terra?"; e "Será que somos inócuos sobre as interações da sociedade?" até os que levam à deliberações mais concisas e críticas, como : "Será que temos todos os direitos inabalavelmente garantidos pela Constituição?"; "Será que somos mesmos livres?"; e, finalmente, "O que é liberdade?"
O que me leva a um ponto intrínseco a estas questões, que é o do questionamento da definição de liberdade. O ilustre leitor pode até achar que é a potencia de ultrapassar qualquer obstaculo natural, fático. Ou dizer que é autonomia. Até utopia.
De uma coisa tenho certeza, você pode não ter o direito de ir e vir (dependendo do lugar pode custar até 9 reais) e clamar por ele, por exemplo. Mas há uma coisa que poderá perceber e até tentar reivindicar. Sou eu, meu caro. Sim, de novo eu, o Ócio. Você me associa ao domingo. Gosta de nós dois porque, teoricamente, é quando tudo é vazio. Não falo só da televisão ou das ruas, mas de todo o universo cósmico. Sou mais influente em sua vida do que a heroína pode ser. Não há nada mais difícil do que sair do vício de ficar deitado na cama. Eu lhe proporciono isso. Você luta por mim, trabalha por mim. Tem dois ou três empregos para arranjar sua zona de conforto e poder, ao menos por um dia, descansar e "ociar". A cadeira de seu escritório se transfigura e se transforma numa cama ou num sofá.
Não adianta, qualquer argumento que utilizar contra mim será refutável: dos demônios, sou o mais apaixonante. Eu estou para você assim como o álcool está para o alcólatra. É inegável que sou inerente às suas necessidades naturais. Comigo, não há problemas, não há nada.
Não adianta, qualquer argumento que utilizar contra mim será refutável: dos demônios, sou o mais apaixonante. Eu estou para você assim como o álcool está para o alcólatra. É inegável que sou inerente às suas necessidades naturais. Comigo, não há problemas, não há nada.
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