Vivemos em um mundo de aparências, superficial e alienado. A cultura é amplamente afetada. Acaba sendo inviável, financeiramente, escolher ser um artista. Pintar, filmar, escrever, atuar, dançar e compor são alguns dos verbos mais desvalorizados: carregam grande engajamento político e crítica incisiva ao sistema vigente. Como é sabido por todos, impera o individualismo e o egoísmo. Assim, se sentindo ameaçados pelo caráter de persuasão da arte ao povo, o alto escalão do poder administrativo se esforça ao máximo para cumprir sua tática de alastrar culturas de distração (jogos, músicas, boates) e, consequentemente, a alienação repulsiva. Não querem que nenhuma forma de manifestação profunda e combatente ao sistema ganhe notoriedade.
O samba, desde seu início, tornava externa as injustiças sociais e políticas e puxava muitas pessoas com a batida ritmada dos pandeiros, chocalhos e cuíca. De uma forma ou de outra, educava e informava. Contudo, hoje mais se vê um samba de entretenimento (o pagode) do que de denúncia. Beth Carvalho, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Noel Rosa e Cartola são alguns dos autores das antigas que compunham letras que processavam diversos assuntos e camadas da sociedade. Por ter um conteúdo mais politizado, não interessa tanto à mídia que se coloque no ar esse tipo de samba.
Na década de 90, borbulhou por todos os cantos as letras dos Racionais MC's. Foi instigada a reflexão, a reinvidicação e a luta, principalmente contra o racismo. Uns dos poucos que se mantiveram fiéis ao conceito de rap (ritmo e poesia), trabalhando o lirismo de forma embasada, bem articulada e informativa.
Mais recentemente, o funk saiu do armário. Surgiu do James Brown, foi para o morro carioca e apropriado. Mistura o frevo, com melodia de samba e batida de afro. Música preta, pobre, expressão de identidade cultural. Brotou na década de 90 com paródias de músicas consagradas e se tornou sucesso na periferia. Como o rap e o samba, o funk também foi corrompido: hoje, a maioria das letras faz alusão ao sexo explícito.
Em 2006, um grupo de jovens formou a Cone Crew Diretoria, permeando nas músicas a nossa relação com o poder público, os policiais e a produção cultural. Não levantam nenhuma bandeira específica, porém põem em voga a discussão política. A essa nova geração que é encarregada a missão de transformar nosso cenário de derrota. A arte se faz por instinto e sem o acesso às técnicas de construção de uma música, filme ou livro não se consegue uma boa produção. Deve ser ampliada a condição dos jovens de poder explorar o mundo artístico, para que um dia deixemos de ser fantoches desta perversa geografia oligárquica, que segue nos decompondo cada vez mais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário