quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Loucura

Parecia inofensiva, mas me dominou, me fez de fantoche, aniquilou minha carcassa e pendurou-me pelo pé. Com o sangue fluindo rapidamente pelas veias neurais, minha cabeça estava a mil. Problemas ricocheteavam em meu intelecto, dentre eles o principal, ela. Ela e seu sorriso ambulante, triste, timído e sincero. Abusiva, atua como subversiva na locomotiva. Dói, sim, é triste, melancólico. As cores, turvas, revezam tons sinestésicos que intimidam qualquer poesia, por mais bruta que ela seja; com ou sem aliterações.

Foi nessa hora que Antônio freiou o carro violentamente, jogando todo o sangue que pulsava em minhas têmporas para o fundo do cérebro. E não foi só isso, meu corpo também foi arremessado pra frente, mas como me encontrava contorcido na cadeira, fiquei de cara pro chão no final da ação do motorista. De ratos, camundongos ou ratazanas, não importa, Antônio tinha uma nojenta criação e se esforçava para que ela crescesse. Tagarela, sempre encheu o meu saco. Ria muito, era boa gente, gente boa. Subi minha cabeça vagarosamente, cuidando pra não fazer meu crânio explodir, porém pronto pra revidar Antônio. Eu estava desvairado, meu pensamento em outra dimensão, chapado de haxixe e mescalina, puta combinação. Tudo tinha muitas cores, girava, vários odores, formas esquisitas. O medo foi o sentimento preponderante quando vi que Antônio não havia freiado o carro abruptamente sem motivos: havia uma blitz a uns 100 metros, já dava pra ver a luzinha piscando. Carregávamos muita droga, não éramos traficantes, apenas doidos. Era tudo muito desnecessário, irresponsável, mas ao mesmo tempo parecia-nos irrefutável e essencial tal situação. Um sentimento exasperado de fuga, uma busca aguda pela solidão, jamais proclamada por algum outro ser.

Não tínhamos o flagrante em mãos, tudo estava na mala, portanto nos importamos em parecer pessoas normais para passar na eventual averiguação do policial. Torçemos muito, sem sucesso: o porco fardado pediu para que encostássemos. Dei tapas na minha cara para acordar. Estranhei a fonia da voz do guarda. Truculento, alto e sério, falava fino. Quase ri, mas Antônio continuou concentrado, quase achei que meu amigo tinha tido um derrame. Foi requisitado a ele o documento do carro e sua habilitação. Sem dizer uma palavra, entregou ao policial. Tudo normal, porém, como de rotina, o policial transmitiu-nos que deveria investigar todo o carro. Saímos do carro e ele mal entrou quando viu marcas de sêmen por todo o canto. Ficou até como nojo de encostar em algo. Saiu do carro e direcionou-se ao porta malas. "Puta que pariu, ferrou", pensei, pois todo nosso "carregamento" estava lá. Entretanto, outra surpresa se manifestou: no vidro da parte de trás do carro encontrava-se os dizeres de "Recém-casados". Não sei bem o que passou na cabeça do policial, mas hesitou e voltou. Deve ter imaginado que éramos gays e que encontraria na mala vibradores, sei lá. E então desse sufoco nos livramos.

Nos limitamos a agradecer e desejar uma boa noite e logo entramos no carro. Não proferimos nenhuma palavra, nosso entreolhar bastou. Um sentimento único, de longevidade, se apoderou de minhas entranhas, algo verdadeiro. Era madrugada, não haviam postes de luz por perto, uma onda forte me empurrou e me fez deitar no banco. "Creio, imagino, formulo hipóteses, devaneio, penso demais". Era o sono, "pilhérias me deixem!", queria parar de raciocinar, nem que por um instante. Há dois dias ininterruptos estava à base de haxixe, mescalina, café e pão. Estava precisando dormir.

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