sábado, 19 de janeiro de 2013

À espera do oculista

Capítulo 1

É verdade, não faz muito tempo, mas tenho saudade de mim, quando com minha primeira namorada. Magra, loira, popular, sorriso artificial e beijo apressado. Raras sombras de tesão, inexistia a paixão. Pulsava apenas a necessidade e a comodidade de ter alguém ao lado só pra satisfazer um desejo inculcado por padrões. Muitos confetes, poucos enfeites. Uma realidade segura por um fiapo de cabelo. Não houveram mudanças no eixo terrestre, o tempo apenas passou. A informação disseminada chegou a mim de forma que a poucos atinge. O tempo ocioso passado em casa, sozinho, ouvindo música e vendo filmes, até mesmo cagando ou deitado, me fez refletir muito sobre a minha vida. Valores, em essencial, existencialistas tomavam conta de meu intelecto.

Confesso que pode ter sido importuno o fato, mas foi de alto valor para a continuidade de minha vida nos anos seguintes. Me definiu quem sou. Aprendi a observar as pessoas e diagnosticar as suas interações.

Não mais temo, receio, finjo, me inibo ou me intimido; as raízes da compreensão foram bem fincadas. Hoje se vê, pela cor do sangue, as marcas de Marx, Neruda, Luxemburgo, Marighella, Guevara, Cortázar, Assis, Buarque, dentre outros Cartolas e mais alguns bambas.


Tinha asco de cerveja, quando com 12 anos. Argh!, amargo! Risadas, copos de plástico e entornadas de vodka acabaram me levando a um coma alcoólico por conta disso. Era a empolgação, a verve do momento de poder voltar para casa de madrugada, pagando de bebum, sorrindo e ignorando o samba. O berço do samba não se fez das cinzas, como contribuir a ele pendurado por fios? Inocência tamanha que na semana seguinte já estava com um copo na mão. Os casos de família não serviam como referência, erroneamente. É tão bom cantarolar, vibrar, beber, fumar, curtir, beijar e ficar rouco de não conseguir parar de relaxar. Sim, a cada batida do pandeiro, a cada verso do canto, a cada passo do gingado da dança minha mente se solta, para de pensar - por dois, três ou quatro minutos ininterruptos - sobre a dura realidade e sua aparente intangibilidade coletivista.

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